Macacos amestrados
Por Stiletto Injuriado Jr.   
macacosVocê aí! Isso, você mesmo! É você que está sentado confortavelmente em sua cadeira, cuidando de sua vidinha mediana que me inspirou a escrever este artigo, você que anda tão acomodado com o que está acontecendo a sua volta, que nem mesmo a pior desgraça o atinge mais.


No começo, ficamos chocados com o horror que chegava na forma de imagens e sons de tiros e explosões da invasão norte-americana no Iraque. Hoje, já nos acostumamos com as mortes dessa guerra que nem sabemos mais porque continua existindo; as mortes se transformaram em meros dados estatísticos.

Nos acostumamos com a corrupção dos políticos – quem aí se lembra do mensalão? Outro dia, viajei no mesmo avião que Luiz Gushiken – o cara que operava o mensalão para o chefe José Dirceu - e ele não me pareceu nem um pouco preocupado em ser reconhecido como o criminoso que de fato é, mesmo porque ninguém no vôo parecia dar a menor bola para o ex-secretário de comunicação do governo Lula; e eu me pergunto: do que será que ele sobrevive atualmente? Quem pagou sua viagem?

Nos acostumamos com o trânsito de São Paulo que, não faz muito tempo, bateu os 220 quilômetros. É como se o trânsito fosse algo normal – quem manda morar numa cidade tão cheia de carros? A culpa do trânsito é nossa! Essa costuma ser a justificativa para o problema propagada pelos políticos, que preferem trabalhar sempre em proveito próprio ao invés de acelerar obras do metrô e investir em alternativas mais eficientes para o transporte público.

Nos acostumamos com os meninos e meninas que distribuem toneladas de inúteis panfletos nos semáforos, emporcalhando a cidade.

Nos acostumamos com os mal-tratos que recebemos de países que se julgam de primeiro mundo, quando os visitamos para gastar nosso dinheiro com turismo e negócios.

Nos acostumamos com o preconceito disfarçado, que nutrimos intimamente por negros e homossexuais.

Nos acostumamos a ficar calados, enquanto a natureza agonizante grita em nossos ouvidos.

Nos acostumamos com a vida medíocre, que ofusca nosso brilho ao nos impor um regime onde a única lei é sobreviver.

Nos acostumamos a dividir nossa existência entre o período produtivo, quando nos ocupamos apenas em trabalhar, comer e dormir, e o período improdutivo, onde temos tempo de sobra e saúde em falta para usufruir do tempo que abdicamos quando estávamos ocupados demais para construir uma vida rica em significado.

Nos acostumamos a nos vitimizar, elegendo ídolos. Almejamos as honras dos heróis, mas não queremos pagar o preço, colocando-nos frente a qualquer tipo de risco.

Encaramos a vida como um fardo que temos que carregar – “a vida é dura!” -, onde não cabe a abundância – “primeiro o trabalho, depois o descanso” – e onde o sucesso é pecado – “dinheiro não traz felicidade”.

Nos acostumamos a atribuir prioridades reais a coisas pequenas e passageiras, como trabalho e bens materiais, e a dar prioridades fictícias a questões realmente concretas e determinantes para nossa existência, como família, amigos e saúde.

Nos acostumamos a comprar coisas que não precisamos, a consumir sempre mais do que é necessário, a julgar os outros por atos isolados, incluindo os que nós mesmos cometemos de vez em quando.

Nos acostumamos a desejar intimamente a desgraça do outro, tratando-o como inimigo, como se ainda tivéssemos que nos matar na disputa por abrigo e comida. Por incrível que pareça, toda a tecnologia que desenvolvemos não foi capaz de resolver o mais básico dos dilemas, que é o convívio em paz e felicidade com seres tão biologicamente parecidos conosco.

Aliás, não somos assim tão diferentes de macacos. Geneticamente, podemos considerá-los praticamente como primos.

Enquanto permanecermos acomodados assistindo impassíveis a beleza e a perfeição ruírem a nossa volta, não seremos mais do que isso mesmo: macacos – aliás,  pior do que isso, somos macacos defeituosos, que não falam, não vêem, não ouvem, macacos de circo, domesticados em troca de comida e uma gaiola limpa.

E você, o que tem a dizer sobre tudo isso? Concorda, discorda ou prefere continuar se omitindo?