| Sempre Alerta! |
| Por Albino | |
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Fixei minha atenção nos rostos dos motoristas. Queria ver algum resíduo de culpa cristã. Aquela cara de "veja bem, minha mãe foi mordida por um babuíno e tive de socorrê-la". Nada. O desprezo pelo pedestre era como o dos mais comuns dos dias. Até hoje acho que minha mãe corrompeu absolutamente a minha alma ao me inscrever no escotismo. Esta coisa de ajudar o outro, de cuidar da natureza, de não deixar pegadas só me atrapalha. Gera crise moral. Curiosamente quanto mais você se preocupa com o outro mais você está sozinho em São Paulo. Fui fazer compras no supermercado e como bom escoteiro, deixei o carro em casa. Andei dez quadras carregando mais de vinte quilos de sacolas. As sacolas, cá entre nós, de pano e de papelão. Maldito Baden Powell. Ao meu lado SUVs desfilavam transportando apenas uma pessoa e seu grande ego.No final do dia resolvi tomar um chope com um amigo. Sentamo-nos num boteco e pedimos que o garçom armasse uma mesa um pouco menos colada nas outras. O rapaz me avisa: "Melhor ficarem por aí mesmo, aqueles caras são da pesada". Os caras em questão eram seis grandalhões com rádios e muitas, muitas armas. Estavam fazendo a escolta de um garoto de não mais de dezesseis anos que resolveu comer num restaurante japonês. Dez minutos depois os seguranças todos eriçados seguram em suas armas e falam nervosamente pelo rádio. O garoto terminou de comer seu sushi. Surge uma Land Rover blindada com mais três caras dentro, que em segundos pára na frente do restaurante e sai em disparada. Três carros, nove seguranças, em alta velocidade e ultrapassando o sinal vermelho para carregar um fidalgo.Quase atropelaram um ciclista na saída. Tenho certeza que o infeliz do ciclista também foi escoteiro um dia.
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