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Você já deve estar curioso: o que será este tal de Blinde Kuh? Num grupo de amigos, se eu soltar este nome depois das 23h, quando todos já estão meio bêbados, alguns de álcool, outros de sono, a sacanagem vai rolar solta – aquele uso do trocadilho, do duplo sentido, que só o brasileiro sabe fazer.
Mas vamos lá: o que vem a ser Blinde Kuh?
É um restaurante no qual eu e minha esposa fomos com alguns amigos na Suiça. A característica do restaurante é ser um local totalmente escuro. Isto mesmo: uma p… escuridão. Não dá pra ver nem o sorriso do colega ao lado. Não estou brincando, é verdade, este lugar existe!
Éramos 6 amigos brasileiros e, logo na entrada, nos mostraram um menu bem simples com apenas 3 pratos (para ficar fácil de memorizar o que você vai pedir). Daí você deixa num armário todo relógio, celular, lanterna, tudo que você tiver com luz, e chega perto da porta de entrada do saguão principal. A instrução é simples: façam uma fila Indiana que o garçom vai vir buscá-los para levá-los à mesa. O garçom é uma senhora baixinha cega. Ela nos leva por este galpão escuro, num tipo de trenzinho para um lado e para o outro até chegarmos ao que, supostamente, é a nossa mesa. Um trenzinho humano num galpão – só faltava tocar a “cabeleireira do zezé” para criarmos o nosso carnaval suiço. Só que ninguém via ninguém.
Obviamente, a sacanagem verbal começou a rolar solta – aquelas frases como “tira a mão daí”, “quem é este do meu lado”, “tira o dedo do nariz”, “chama aquela gostosa” e várias outras. Após o ritual do pedido e quando a comida e a cerveja chegaram, veio novo desafio. Como comer sem ver? Como colocar a loira gelada num copo sem derramar? Só apelando para os velhos instrumentos alimentares, aqueles seus companheiros inseparáveis que lhe ensinaram a comer, os seus dedos. Dedo para saber se a cerveja já chegou perto do bocal, dedo para saber onde está a comida no prato e, para os que ainda decidiram comer com talheres, para uma ajudazinha.
Blinde Kuh significa Vaca Cega. Acho que este deve ser o nome daquele jogo infantil Cabra cega. O que aprendi naquela noite? Primeiro, uma forma inteligente de negócio que suporta a inclusão e o desenvolvimento sócio-econômico de uma minoria, um grupo de cegos (o restaurante pertencia a uma fundação de ajuda aos cegos). Segundo, que talvez nossa vida seja, na verdade, uma visita a um grande Blinde Kuh – você tem que confiar e ir tateando para saber onde está e o que está fazendo – especialmente num país volátil como o Brasil. Terceiro, que com amigos, qualquer dificuldade fica mais fácil. Por fim, que (o que eu já sabia), no escuro, você pode se divertir pra caramba…
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