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A comparação, mais do que inevitável, é necessária. Ela traz parâmetros pra a construção e "gerenciamento" de nossa identidade. Ao nos compararmos, temos a possibilidade de "moldar" nossa personalidade e compreender melhor o que temos de parecido e de diferente com aqueles de, de alguma maneira, nos identificamos.
Grandes fenômenos acabam estabelecendo definições para as pessoas e para determinados grupos. Um sofrimento coletivo como um campo de concentração ou um terremoto como o que matou centenas de milhares de pessoas no Haití "coletivizam" sentimentos, e determinam semelhanças em pessoas que antes disto não necessariamente teriam algo em comum.
(Logicamente este "algo em comum" citado acima se refere à individuação das pessoas do ponto de vista psicológico, e não às inúmeras semelhanças que temos, quer sejam de nossas essências culturais ou biológicas. Somos muito mais parecidos do que gostaríamos de ser).
Estes eventos - que determinam uma marca no espaço e tempo de muitas pessoas ao mesmo tempo - acabam estabelecendo um registro, um ponto em comum, que no decorrer do tempo acabam criando fortes marcadores de personalidade naqueles que as vivenciaram. Em situações ruins chamamos comumente isto de "Trauma".
Mas como não há nada de absolutamente ruim ou absolutamente bom, chamemos apenas de "registro", pois existem inúmeros outros registros que reforçam o senso coletivo, e simultaneamente, o senso individual, pois estabelecem as regras com as quais pretendemos nos parecer (com alguém, com algo ou com nós mesmos).
Lendo o artigo de Maria Rita Kehl de 06 de fevereiro no Estado de São Paulo - "Meu Tempo", pude constatar um destes registros, o da Geração de 1968. É impossível para alguém que foi jovem em 1968 (e/ou que teve acesso ao que estava acontecendo) que este registro não se torne fundamental como referência para a construção da sua individualidade.
Mesmo que queira, Maria Rita não consegue definir o "Meu Tempo" no presente. Na verdade ela nem pretende isto. Ela define seu tempo presente relacionando-o com uma estrutura narrativa e linear de vida que necessariamente inclui um importante registro: sua vivência individual e coletiva dos reflexos sociais de 1968.
É curioso que muitas pessoas não entendem estes fenômenos como marcadores individuais, mas sim marcadores temporais. Há pessoas que até hoje andam vestidos de revolucionários (Guerra), ou de hippies (Paz), ou de qualquer outra coisa. Nestes casos estas pessoas não estabeleceram registros dentro de uma linha de tempo, mas sim resolveram continuar a viver aquele momento indefinidamente.
Mais curioso do que isto são as pessoas que não vivenciaram determinadas épocas e se apegam a elas de maneira romântica, como adolescentes Dândis, os ecologistas radicais anti-tecnologia ou Rockabillies de 30 anos. Estas pessoas tiveram acesso a este registro de maneira indireta, sentem saudades de um tempo que não viveram. A vivência de um momento e a construção da personalidade podem acontecer de maneira idealizada, como acredito que aconteça também naqueles que realmente vivenciaram os registros que usam para estabelecer padrões.
Não consigo deixar de pensar na peça "A Vida é Sonho", de Calderón de La Barca (1550), que conta a história de um príncipe que passa a vida toda aprisionado em uma masmorra. Quando ele nasceu as sacerdotisas disseram que ele só traria problemas e tragédias para o reino, e o seu pai resolve deixa-lo trancado, sem acesso a ninguém.
Um dia o rei morre e os nobres decidem entronar o herdeiro. Ele sai da masmorra, e faz tamanhas atrocidades que no dia seguinte é trancado novamente, e lá fica.
A peça se passa justamente no momento em que este príncipe tenta compreender se aquele dia que passou fora da masmorra foi real, ou se foi fruto de sua imaginação.Inevitável pensar em Descartes e em seu filho recente, Matrix.
A Vida é Sonho, e, estranhamente, aquilo que nos marca e/ou nos define nunca poderá ser confirmado como real, ou imaginário.
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