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Há alguns anos atrás eu resolvi experimentar pintar. Particularmente nunca tive grande aptidão para a pintura, sempre fui mais do desenho e da gravura. Hoje é possível ver em meus trabalhos a influência da xilogravura, nos risquinhos que faço em todos os meus trabalhos.
Isto é uma coisa interessante, por sinal. Sempre me interessei pela Xilogravura pois há um diálogo entre o que o gravador pretende e o que as ranhuras da madeira permitem que ele escave. Hoje, de certa maneira, sou o escavador e a madeira, quando defino o veio de minha madeira e o entalhe que vou realizar em mim.
Quando resolvi pintar, minhas primeiras experiências foram, no mínimo, desastrosas. Muita tinta, muito borrão, uma sujeira de dar dó. Aqueles animais que pintam - chimpanzés e elefantes - estavam anos-luz do ponto de vista técnico se comparados a minha pobre maneira de usar a tinta e a tela.
Mas um quadro, apenas um, ficou interessante. Era o retrato de uma cadeira. Pode parecer estranho um "retrato" de uma cadeira, mas era exatamente isto: Resolvi retratar uma ausência, a ausência de meu pai.
Quando eu era mais novo, minha mãe, em seus momentos de depressão, cantava uma música do Nélson Gonçalves (Naquele mesa está faltado ele, e a saudade dele, tá doendo em mim). A maneira lacrimosa que minha mãe entoava esta canção me dava um puta baixo astral, e tornava mais forte a sensação de perda de meu pai. Sendo assim, nada melhor que purgar este sentimento retratando aquela ausência.
O quadro acabou ficando pendurado na parede de minha casa durante alguns anos, num corredor mal iluminado. De um tempo para cá, com as mudanças de casa e de vida, ele foi para algum lugar ainda mais escondido.
Ontem fui visitar minhas filhas, e ele estava na sala, à minha espera. Pediram que eu levasse embora o quadro, não tinha espaço naquela casa para ele. E assim a ausência retorna, reaparece, de maneira simbólica, num novo momento. Sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas a vida cria oportunidades interessantes de reflexão quando o universo simbólico aparece e permite conexões como estas.
Saí, levando meu quadro, minha ausência, e um sentimento novo em relação a ele.
Acho que está na hora de mandar enquadrar o bicho.
PS - A fotografia acima é meramente ilustrativa. Depois fotografo o quadro e coloco neste post.
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