Como
analisar a década de 2000 no cinema?
Comecemos
com o que diferencia ela das outras décadas. Essa década é a
década da chegada do digital, é a década na qual 98% da produção
cinematográfica passa por processos digitais, desde maneiras novas
de manipular a imagem, quanto dprocessos inteiramente digitais. O
digital está se tornando para o cinema, o que foi a tinta a óleo na
pintura. Ele está mudando radicalmente a forma como se capta e pode
se distribuir imagens. A noite nunca foi tão real quanto pode ser
hoje.
Ela
é também a década da radicalização, da separação mais radical
entre a "arte" e o espetáculo. A década da disseminação
dos festivais, e da solidificação do 'filme de festival', do começo
do conflito real entre o cinema e as novas formas de difusão de
cultura. Uma lista como essa, começa com uma reflexão de como os
filmes apresentados são e serão percebidos dentro de um futuro
realmente desconhecido, qual é a importância deles para o cinema
como expressão cultural no novo milênio.
Ah,
caso você queira me xingar, já que estamos com problemas com os
comentários, o email para isso é:
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P.S.: A lista está abaixo, e invertida só para você ter que passar por tudo mesmo...
100-
La Ciénaga (O
Pântano) Lucrecia Martel 2001
Lucrécia
Martel, faz hoje o melhor do cinema latino americano que tenho
contato (exceto o brasileiro). Ela faz o que grande parte do cinema
nacional tenta e não consegue. Ser lírico retratando o nada, a
imutabilidade os semi excessos, os semi excluídos, aqueles que estão
se segurando para não escorregarem pelas frestas da
99-
'Coringa'
Heath Ledger 2008
Se
você me conhece sabe que eu não gosto do Cavaleiro das Trevas (o
filme, é claro). Acho moralista, arrastado, muito cristão americano
(no mal sentido). Mas acho a atuação de Heath Ledger nesse filme
magnífica, uma coisa incrível, que vi poucas vezes no cinema; uma
pena que esse papel tenha causado a sua morte, não acho “sacrifício
pela arte" válido. O Coringa de Heath Ledger é uma força da
natureza, acontece, não se justifica não pede passagem é um lado
que todos temos, que tentamos esconder, e que ele provavelmente
morreu ao tentar devolvê-lo para o lugar de onde veio.
98-
Caché (Michael
Haneke) 2005
Haneke
fala nesse filme da Europa, da nova paranoia pós 11 de setembro e 18
de março. Da hiper vigilância, do entendimento da migração como
um problema de ameaça à cultura europeia, da culpa com o que foi
feito e não pode ser mudado, da violência quase gratuita, sem
aviso, mas com consequências graves.
97-
Hak se wui yi wo wai
kwai (Eleição 2) Johnie To 2006
Ninguém
presta nesse filme, mesmo. É um dos casos estranhos no qual o filme
é feito para você se identificar e 'torcer' para o 'menos pior'
ainda mais depois de ver o primeiro e saber que o menos pior do
primeiro filme é o escroto desse. Submundo retratado como realidade,
apesar de ser uma ótima ficção e Johnie To dominar a direção
magistralmente. Esse e o primeiro filme mereciam um posto mais alto,
mas essas coisas de fazer lista são complicadas.
96-
Into The Wild (Na
Natureza Selvagem) Sean Penn 2007
Sean
Penn devia calar a boca e fazer filmes, tanto como ator quanto
diretor. A força da história que ele conta, é contraposta com a
levez que você é levado a se debruçar por sobre essa história e
conhecer seu personagem. Nem todas as jornadas de auto descobrimento,
nem todas as histórias de maturidade são perfeitas, mas algumas
valem a pena serem contadas.
95-
Wedding Crashers
(Penetras Bom de Bico) David Dobkin 2005
Um
grupo de amigos meus começaram a bancar os penetras em casamento
depois de verem esse filme, tem uma amigo meu que é louco até hoje
para fazê-lo. A inocência e a diversão, o fator
vamos-aproveitar-a-vida desse filme são cativantes, afora o fato de
que em certos momentos ele é de chorar de rir.
94-
Ghosts of Mars
(Fantasmas de Marte) John Carpenter 2001
John
Carpenter é dos cineastas mais 'odiados' dos Estados Unidos, poucos
gostam, ou, até, veem seus filmes; mas ele continuamente introduz
novos gêneros e indica novos caminhos futuros para hollywood.
Fantasmas de marte possui uma lógica interna que se assemelha a um
video game, e é uma reinterpretação do tema contido em Vampiros de
Alma; uma fábula de ação e horror.
93-
L'ivresse du pouvoir
(A Comédia do Poder) Claude Chabrol 2006
Isabelle
Hupert, mostra como ela e Chabrol estão em ótima forma nesse drama
pessoal disfarçado de thriller de corrupção, que ocorre de forma
quase transcendental, uma história que poderia acontecer em qualquer
lugar, mas por decisão do destino ocorre na França.
92-
Borat: Cultural
Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan
(Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão
Viaja à América) Larry Charles 2006
Só
o título já é suficiente para deixar com pulga atrás da orelha.
Com esse filme Sasha Baron Cohen pulou de ser um comediante com um
show underground de fim de noite, para uma estrela mundial quase que
instantaneamente. A impressionante atuação de Baron Cohen serve
para desarmar uma série de tipos clássicos dos Estados Unidos da
América; criando um semi-documentário chocantemente engraçado
sobre a relação deles com o diferente.
91-
Dodgeball: A True
Underdog Story (Com a Bola Toda) Rawson Marshall Thurber
2004
Recheado
com algumas das gags mais idiotas e mais absurdas dos últimos
tempos, só de pensar nesse filme eu começo a rir e pensar em vários
momentos que eu consigo citar de cabeça... Revejo-o com prazer a
qualquer hora.
90-
Youth Without Youth
(Velha Juventude) Francis Ford Coppola 2007
Mais
um da sequência "não foi feito para ser entendido", mas
sim sentido. Coppola volta à fazer um filme digno de parte da sua
história cinematográfica, abrangendo uma série de mistérios e
teorias sobre o que faz o ser humano para no fim descobrir que o que
faz o ser humano são os outros seres humanos, e não uma teoria
sobre o primordial, e que por mais que tentemos, nada nos impede de
ter o mesmo final do resto dos mortais.
89-
Southland Tales (
Southalnd Tales - O Fim do Mundo) Richard Kelly 2006
Se
no filme acima era difícil entender o que acontecia, nessa
alegoria/filmecatatrofe/sátira/musical/fábula de como o
mundo-sociedade termina, certas partes são feitas para não serem
entendidas, mas saboreadas, aproveitadas. Richard Kelly faz, o filme
dessa lista, que talvez ganhe mais com o tempo, que vire mais
importante e pungente; que resuma certas partes do começo do século,
da sensação eterna de mudança e morte do velho que eternamente
sentimos.
88-
Basic (Violação
de Conduta) John Mctiernan 2003
Nada,
mas nada mesmo é o que parece no roteiro de James Vanderbilt nesse
thriller de Mctiernan, até a floresta panamenha e a chuva quase
incessante parecem ser suspeitas de algo. Um filme de 'ação' sem
ação, completamente psicológico e intrincado, frustrante, porque
mesmo quando explica te deixa meio no ar. Não fez muito sucesso na
época porque não tem momentos óbvios e lembro que muita gente saia
confusa/frustrada do cinema (pode ser também porque pra esse tipo de
filme a legenda brasileira não ajuda nada...).
87-
The Royal Tenembaums
(Os Excêntricos Tenembauns) Wes Anderson 2001
O
filme que chamou a atenção para Wes Anderson no Brasil, uma sátira
sensível do que é ser uma pessoa que vê mais longe (em certos
assuntos) do que os outros vêem, a solidão que vêm associada a
isso; unida ao paradoxo de fragilidade/força das relações
familiares como um todo.
86-
Idiocracy Mike
Judd 2006
Ah
como eu queria que esse filme tivesse saído pós Obama só para ver
a reação das pessoas frente a um presidente negro que é uma trolha
e usa uma arma no congresso, num filme cuja a tradução literal é:
Idiocracia. Os americanos iriam ficar loucos, metade achando que isso
era exatamente o que o Obama faz, metade achando absurdo falar isso
dele. E iam todos, sem exceção passar por cima do fato, de que esse
filme está na verdade chamando todos nós de burros. Burros por
confiarmos em corporações mais do que confiamos em amigos, burros
por acreditar nos rótulos, burros por sermos intelectuais
complicados com conflitos existenciais. E no final todos nós rimos
muito dessa comédia genial de humor negro (só para não perder a
piada infame: negro como o atual presidente americano – que ta mais
pra café com leite...)
85-
Land of the Dead
(Terra dos Mortos) George A. Romero 2006
Romero
atira para todos os lados, para a indústria do entretenimento que
seria o análogo aos fogos de artifícios usados no filme para
apaziguar os zumbis, para a sociedade de massa que eleva a
entretenimento bizarrices, para a sociedade de classes capitalista.
Os zumbis começam pouco a pouco a recobrar algo de uma certa
humanidade que possuíam, sendo mais humanos do que os que ainda
possuem 'consciência' em meio à brutalidade da tentativa de reeguer
uma sociedade no pós apocalipse.
84-
Hunted (Caçado)
William Friedkin 2003
Friedkin
constrói um filme puramente masculino, um filme que lida com a
imersão completa e a perda de referência advinda da mesma. A luta é
entre a masculinidade de Benicio del Toro e Tommy Lee Jones, que
frente a situações extremas começa cada vez mais a virar um traço
animalesco, e assume-se a relação de caçador presa, do homem
despido daquilo que existe de humanidade, fadado a sobrevivência
pura.
83-
Inland Empire
(Império dos Sonhos) David Lynch 2006
Mergulhar
na alma/consiência de um artista é sempre difícil e exigente de
quem o faz; ainda mais quando é David Lynch que lhe pede que faça
isso. Filmado em digital de baixa resolução, distribuído de
maneira nunca feita antes (DVD, cinema e internet, tudo de uma vez
só). Lynch utiliza-se maravilhosamente das possibilidades que o meio
escolhido lhe oferece, usando o branco e o preto profundos de maneira
magistral para que entendamos/entremos na insolitez que a(s)
personagem(s) de Laura Derna passa(m).
82-
La Meglio Gioventù
(O Melhor da Juventude) Marco Tulio Giordana 2003
Esse
épico de seis horas, do qual não se ouviu falar muito fora da
Itália ou do festival de Cannes, onde foi ganhador do Un Certain
Regard; talvez, justamente, por possuir seis horas de duração.
Uma atualização, re-imaginação de Rocco de Visconti;
abordando a Itália, e uma família italiana, em um país
semi-fragmentado que começa se transformar em uma país de primeiro
mundo e lutar com a sua rebeldia indissociavelmente italiana. Possui
momentos de beleza profunda.
81-
Kantoku · Banzai!
(A Glória do Cineasta) Takeshi Kitano 2007
Homenagem
à realização do cinema em geral, como extrair "suco" ou
material bom abordando os gêneros na usa essência e continuando a
ser profundamente japonês. A segunda parte do filme é uma comédia
escrachada japonesa de difícil apreensão para que não está
acostumado com a sociedade nipônica.
80-
Mou Gaan Dou
(Conflitos Internos) Lau Wai-Keung e Alan Mak 2002
Alvo
do remake ganhador do Oscar de 2006 Infiltrados, o original de
Keung e Mak é mais pungente, mais seco. Uma análise de como na
sociedade moderna a simbiose entre um homem e seu trabalho pode
destruí-lo, especialmente no mundo oriental. Dois homens lutam
contra si mesmos e um contra o outro em busca de descobrir tanto sua
essência, quanto a escapatória da prisão que a sociedade impõe a
eles. Pena que a trilogia acabou não chegando por aqui.
79-
Tropa de Elite
José Padilha 2007
Torcedores
suecos, baladas na Itália e vencedor do festival de Berlim. Esse
filme que subverte a relação de forças tradicional na boa
cinematografia brasileira conseguiu de forma pungente se infiltrar na
cultura nacional, e deixou sementes em culturas radicalmente
diferentes das normalmente atingidas pelo cinema nacional. Não é
zero dois?
78-
Hable con Ella
(Fale com Ela) Pedro Almodóvar
Filme
sobre a dificuldade de recomeçar, de superar e esquecer; às vezes
perdoar. Além do valor intrínseco de uma obra profundamente
humanista, ainda consegue transformar, subverter o que seria um
grande vilão,em um ser adorável e empatizante.
77-
Mulholand Dr.
(Cidade dos Sonhos) David Lynch
Apesar
de ser quase um desserviço, o título em português revela uma (das
muitas) faceta(s) desse filme: a relação que ele estabelece com o
onírico. Talvez até de maneira mais forte do que o Império dos
Sonhos, esse é um filme de mergulho na personalidade de um cineasta.
Um filme que se apresenta como quebra-cabeças sem solução, mas que
te implora para ser resolvido, para que se tente uma solução à si
mesmo. Se eu estivesse escrevendo para uma publicação de
tecnologia; o chamaria de “um filme 2.0”.
76-
Public Enemies
(Inimigos Públicos) Michael Mann
Crise/mudança
de valores na sociedade americana do começo do séc XX, aliada à
mudança do papel e da forma do cinema do começo do séc XXI.
Gerando uma ultra realidade, um Estados Unidos dos anos trinta que
parece existir escondido em algum lugar por entre as frestas da nossa
consciência, ou os bits da câmera digital de Michael Mann.
75-
Inglorious Basterds
(Bastárdos Inglórios) Quentin Tarantino2009
Tarantino
funda aqui uma nova mítica, é com esse filme que pela primeira vez
- de maneira violenta e recheada de borracha sangrando- em que a
figura de Hitler e do nazismo como força política pode deixar de
ser tratada somente com precisão histórica pelo grande cinema.
Fazendo isso, Tarantino aborda uma das principais e mais
negligenciadas características nazistas; (porque o todos os ismos,
desde fanatismo até o Lulismo a possuem) seu amorfismo.
74-
Paranoid Park Gus
Van Sant2007
Apesar
de todos os artifícios da vida moderna, de todas as facilidades e
regalias que possuímos nela; ainda somos humanos. Ainda nos
culpamos, ainda sofremos e achamos que conseguiremos sobreviver
apesar das coisas, só para descobrimos que seremos obrigados a
carregá-las, como ao celular que não largamos.
73-
Anchorman: The Legend
of Ton Burgundy (O Ancora: A Lenda de Ron Burgundy) Adam Mckay
Não
leve ninguém a sério, faça as pessoas rirem e construa uma
ferrenha crítica social sem ninguém perceber direito que isso
acontece... Essa é a fórmula de “O Âncora”, que sutilmente
destrói o stablishment da mídia, transformando repórteres
em gangues organizadas, mais preocupados com o nascimento de um panda
do que com qualquer outra coisa realmente importante. “Stay classy,
San Diego”.
72-
Girl Next Door (Um
Show de Vizinha) Luke Greenfield
Era
para ser um 'star vehicle' para Elisha Cuthbert, conhecida tão
somente como a filha do agente secreto Jack Bauer em '24 horas'. E
acabou virando uma versão do século XXI, pré crise financeira, de
“A Primeira Noite de um Homem” com a diferença que dessa vez,
quem esconde o segredo não é o garoto, não é mais só ele o
responsável pelas relações e pela maior parte das trapalhadas. É
também um pouco mais comédia e um tanto quanto mais açucarado,
ainda assim, muito bom.
71-
King Kong 2005
Peter Jackson
Uma
verdadeira homenagem faz referência, mas se apropria, remolda e
transforma em seu o que está sendo homenageado. Peter Jackson
re-cria para uma audiência contemporânea o amor impossível de Kong
pela donzela e estabelece novas fronteiras artísticas para o uso da
computação gráfica como elemento narrativo e de interpretação.
70-
50 First Dates
(Como Se Fosse a Primeira Vez) Peter Segal
Um
amigo meu, certa vez mostrou esse filme para um grupo de velinhas. No
Intervalo da exibição elas reclamavam de quão grosseiro e bobo o
filme era. Ao final da sessão todas tinham adorado o filme, já eu
rolei de rir quando vi a primeira parte. Só o fato de atingir a
audiências radicalmente diferentes é um mérito em si, fazê-lo sem
perder respeito ao seu assunto e fazendo de maneira verdadeiramente
engraçada é um mérito e tanto!
69-
Tropic Thunder
(Trovão Tropical) Ben Stiller2008
Tiro
no saco de todo mundo. Bem Stiller volta à direção, arma a
metralhadora e atira para todos os lados possíveis, acertando todo o
espectro da vida Hollywoodiana e de produção de um filme. Ainda
consegue extrair a raridade de conseguir uma indicação ao Oscar de
um ator em um filme de comédia escrachada.
68-
Black Dahlia (A
Dália Negra) Brian De Palma2006
De
Palma tem constantemente se recusado a contar histórias de maneira
convencional, apesar de insistentemente aplicar formas que pareçam
pertencer a um modo mais convencional de contar histórias. No melhor
noir colorido, De Palma faz com que aceitemos e entendamos porque
Josh Hartnett quase chuta a bunda de Scarlett para trocá-la por
Hillary Swank.
67-
Ali Michael
Mann2001
Primeiro
uso sério de câmeras digitais em uma grande produção
hollywoodiana. Câmeras, que justamente servem para revelar,
desvendar o que não conhecemos, ou entendemos errado de certos
processos. Assim como Ali parece possuir uma visão única, que
certas vezes se prova correta, certas horas existe devido à um
excesso de fúria e orgulho. Aula de como criar um filme que, assim
como o seu protagonista/personagem real, quebrou com as expectativas
de todos.
66-
Unbreakable (Corpo
Fechado) M. Night Shyamalan2000
A
lógica nunca salvou ninguém. E não necessariamente, salvará.
Salvação é algo muito mais próximo do divino e da dificuldade do
que simplesmente engendrar um plano no escuro da sua casa, que
abarque outras vidas a um custo maior do que você estaria disposto a
pagar. No cinema, assim como na natureza e na religião, a maioria
das coisas tem um oposto, e as grandes histórias nem sempre falam
sobre o confronto, mas muitas vezes sobre a descoberta desse nêmesis.
65-
No Country for Old Men
(Onde os Fracos Não Tem Vez) Irmãos Cohen2007
O
delicioso confronto entre os três atores principais, é um pouco
diminuído pela tradução em português do título (que em uma
tradução livre do original seria algo como: Não é um país para
velhos). Que na verdade fala/se estende para parte da civilização
ocidental, aquela que se entende e identifica com vários aspectos da
vida americana, em uma das melhores adaptações de um western para
os tempos modernos.
64-
Hollow Man (O
Homem Sem Sombra) Paul Verhoeven2000
Porque
você segue regras? E o que você faria se ninguém soubesse se você
quebrou as regras. Num desafio técnico incrível para a época
(fazer com que um ator parecesse invisível, mas reagisse de maneira
realística a coisas como agua caindo sobre ele), Verhoeven vai fundo
na alma humana e cria uma história que remete a parte do começo da
literatura de terror no séc. XIX: o medo da tecnologia. Não pela
tecnologia como um fato em si, mas pela liberdade extrema que pode
dar ao homem, e a nossa incapacidade de lidar com essa chance de
liberdade, seja como indivíduos ou sociedade.
63-
Shaun of the Dead/
Hot Fuzz (Todo
Mundo Quase Morto/ Chumbo Grosso) Edgar Wright2 004/2007
Ambos
os filmes feitos pelo grupo diretor/atores que seu uniu na TV
britânica (fazendo o genial seriado Spaced) são uma novo sopro para
a comédia e para os filmes independentes em geral. Parte de uma
gerção pós-internet, Edgar Wright e trupe fazem um 'catado' de
homenagens e paródias a filmes de ação e terror e criando ótimas
cenas de ação em meio a gags absurdamente engraçadas, com frescor
que não se vê facilmente no cinema atual.
62-
The Queen (A
Rainha) Stephen Frears
Quanto
tempo as coisas ainda demoram para passar? Como uma mulher que viu o
mundo moderno nascer das cinzas da Europa pode ter que lidar com
tantos (e tão complicados) fatos públicos que entraram na vida
coletiva sem pedir licença? Helen Mirren como rainha consegue
resumir algumas facetas das respostas e dar vida e força a uma
realeza quase palpável, que não precisa, nem quer um “star
system”; mas sim continuar a zelar pelo seu país.
61-
El Laberinto del Fauno
(O Labirinto do Fauno) Guillermo Del Toro2006
Um
conto de fadas moderno -sombrio como os pós-medievais que
conhecemos- que pegou o mundo de assalto. O confronto entre a visão
adulta embebecida pelo prático do viver, em oposição à
ingenuidade infantil. Como usar efeitos reais melhores e mais baratos
que os de computador... Uma aula de cinema com quem aprendeu muito
bem com o começo do blockbuster de efeitos especiais.
60-
A History of Violence
(Marcas da Violência) David Cronenberg
Se
o passado ainda não lhe condena, irá te condenar um dia. E cabe aos
fortes de alma e coração conseguirem se reconstruir das cinzas e
reafirmar seus projetos e quereres frente à sociedade e àqueles que
ama. Quase que um filme sobre a trajetória do próprio diretor, que
faz um filme pesado sobre as vicissitudes do ser humano.
59-
Kill Bill 1&2
Quentin Tarantino 2003-2004
A
saga de vingança de Tarantino é também uma saga de lembrança dos
gêneros de filmes que normalmente tem essa temática. Pensado
inicialmente como um filme divido em duas partes; em verdade eles
possuem formas estilísticas bem diferentes e autônomas entre si. A
imagem de Uma Thurman de amarelo, segurando uma katana é algo
inesquecível. David Carradine está brilhante.
58-
Låt Den Rätte Komma
In (Deixe Ela Entrar) Tomas Alfredson 2008
Apesar
da saga crepúsculo há lugar, sim no séc XXI , para uma
reinterpretação inteligente do principal monstro do cinema. Tomas
Alfredson cria uma nova leitura de vários mitos vampíricos através
de uma lente mais “realista”, a noite eterna Sueca e o problema
de “bullying” que aflige a maior parte do mundo desenvolvido,
complementando, a cena da piscina é algo de maravilhoso.
57-
Hey Yan Quan (Eu
Não Quero Dormir Sozinho) Tsai Ming-liang 2006
Num
mundo global, não significa que todos falemos as mesmas línguas, o
que não nos impede de nos comunicar, nos relacionar e precisar de
alguém. Dos cineastas mais líricos dos últimos tempos, Ming-Liang,
cria um mundo pobre e avassalador, que consegue tirar beleza e certa
doze de alegria-felicidade de tragédias globais e pessoais.
56-
Sanxia Haoren (Em
Busca da Vida) Jia Zhang Ke 2006
O
título internacional, Still Life complementa muito bem o título
brasileiro, a história de trabalhadores chineses que tentam
reconstruir os seus caminhos durante a desocupação de uma cidade
para a inundação que será feita pela Hidroelétrica das Três
Gargantas. Junto com seu documentário-irmão Dong esse filme
é a vontade de abandonar a China da revolução cultural, com a
força e resistência de quem quer entender e talvez mudar um futuro
incerto; tudo isso transformado na poesia visual de um prédio que
parte em direção ao espaço como um foguete; como que para ver o
mundo como uma Natureza Morta (tradução literal do título
internacional).
55-
Apocalypto
(Apocalypto) Mel Gibson 2006
Mel
Gibson foi uma das maiores estrelas da década de noventa. Nessa
década, ele resolveu atacar principalmente como diretor, expondo os
interiores de personagens bíblicos e de uma miríade de Maias e
indígenas da America Central pré-colombiana. Com uma filmagem quase
documental, usando muito bem as possibilidades do digital e criando
um universo opressivo e assustadoramente real.
54-
Me Myself & Irene
(Eu, Eu Mesmo e Irene) Peter e Bobby Farrelly 2000
Falta
de respeito. É disso que a verdadeira comédia precisa. Comédia que
respeita valores politicamente corretos, é boba e merece ir para o
horário das 7 da televisão; tipo Friends. O anão negro pode sim,
ser uma espécie de vilão. O personagem principal, com dupla
personalidade cinematográfica, pode se envolver em sexo selvagem com
a mulher amada sem saber. E que os irmãos Farrelly continuem fazendo
filmes de mau gosto que me façam rolar no chão de rir, adoro fazer
isso!
53-
The Bad Lieutenant:
Port of Call - New Orleans (Vício Frenético) Werner
Herzog 2009
Uma
das grandes polêmicas no mundo do cinema nesse ano. Abel Ferrara deu
declarações de que queria matar todos envolvidos no projeto, de que
o filme era absurdo, entre outras coisas. Talvez porque ele não o
tenha visto, Nicolas Cage volta aos tempos de Vivendo no Limite, e
entrega uma performance fantástica, as câmeras-lagarto e a
estrutura solta quase que de brincadeira mais do que justificam esse
Herzog nessa lista.
52-
O Cheiro do Ralo
Heitor Dhalia 2006
“Mas
eu quero pagar” – Diz Lourenço o personagem principal na parte
deveras escrota (e a melhor) do filme de Heitor Dahlia. Arrisco dizer
que desde de “O Bandido da Luz Vermelha” o cinema brasileiro não
tinha um anti-herói tão eficaz, pena que ele (o anti-herói)
derrapa no meio do filme e existe uma certa redenção/punição. Eu
colocaria esse filme muito acima na lista, caso ele continuasse
escroto e fiel até o final do mesmo.
51-
John Carpenter’s
Cigarette Burns (Sem tradução) John Carpenter 2005
Vários
filmes estão nessa lista (não só porque) falam sobre o cinema. A
diferença é a prevalência (do mais importante) ponto de vista, o
do espectador. Que se transforma e dialoga com aquilo que foi feito,
quase como um Chamado melhorado mil vezes, essa declaração de amor
ao cinema projetado na ‘tela prateada’ é um Horror de primeira
qualidade. Pena que pouca gente viu e verá qualquer uma das duas
temporadas do ‘Masters of Horror’. Programa de telefilmes -que
não existe mais- do canal americano Showtime.
50-
Se Nada Mais Der Certo
José Eduardo Belmonte 2008
Coisa
de cinéfilo; quando eu vi esse filme, dei sorte de vê-lo na mostra
do ano passado, fiquei completamente impressionado e feliz de que o
diretor estava ali perto, presente. Com a força e agilidade de um
Cassavetes contemporâneo, esse filme segue essa trupe de
assaltantes/pessoas do submundo. Marginais, no senso estrito da
palavra, através de uma aventura/saga sem objetivo claro ou chegada,
exceto, talvez, a sobrevivência.
49-
Goya's Ghosts
(Sombras de Goya) Milos Forman
2006
Milos
Forman dirige esse chute no saco do artista como ser necessariamente
bondoso. Ótima encenação histórica e brilhante atuação de
Javier Bardem e Natalie Portman; numa história sobre relações de
paternidades não resolvidas: Europa-América, Igreja-Revolução,
Artista-Obra, Pai-Filha.
48-
The Brown Bunny
Vincent Gallo
2003
Do
Boquete de Cloë Sevigny, da vaia em Cannes, dos planos parados e
muito silêncio da vida de um homem sozinho e torturado. Virou o
filme cult dos cults, fez com que Vincent Gallo abandonasse os
projetos de direção futura dele. É também digno de uma critica
muito maior, sendo mais explicação que o que esse simples parágrafo
conseguiria: irá só confundir e estranhar mais ainda.
47-
Ocean's Twelve
(Doze Homens e um Segredo) Steven Soderberg 2004
Soderberg
fez o mundo tremer no final da década de oitenta, e o Oscar também
com Traffic e Erin Brocowich. Mas nada melhor do que quando ele
resolve não se levar a sério e brincar de gastar alguns milhões de
dólares com um grupo de amigos figurões de Holywood. No melhor e
mais despretensioso filme da série, a brincadeira de Soderberg,
Clooney e companhia fazem é uma ótima maneira de discutir até onde
o cinema vai, e o quanto é exigido de que audiência participe do
que está acontecendo, para se ter um filme.
46-
Pride & Prejudice
(Orgulho e Preconceito) Joe Wright 2005
Continuando
e fechando a sessão Keira Knghtley esse é um dos melhores longas de
estréia da década, fresco, leve e muito bonito. Com boas atuações
e uma câmera perspicaz, nova como a história pede; Joe Write trouxe
frescor para a muito revisitada obra de Jane Austen. Pena que seu
segundo longa seja muito mais um exercício de estilo, bem realizado
diga-se de passagem, que uma continuação do tratamento suave que
ele foi capaz de imprimir nesse primeiro. O Solista vale uma passagem
também, apesar que parece que a sensação ao ver o primeiro Joe
Wright não parece que irá voltar.
45-
Domino (Domino - A
caçadora de Recompensas) Tony Scott
2005
Sessão
Keira Knightley começa agora; com roteiro de Richar Kelly de Donnie
Darko, Domino é um sopro de vida e estética, coerente com o que
acontece na tela nos filmes de ação. É uma pena que após toda a
experimentação visual de Domino, Tony Scott tenha feito filmes de
ação que drenavam dessa nova estética, como maneira de enganar o
espectador, ao invés de adicionar ao que ele estava contando. Ele
deve estar bem mais rico agora...
44-
Wall-E Andrew
Stanton 2008
Só
pelos 40% do filme sem uma fala e o número de pessoas que foram ao
cinema, Wall-e é um feito. É óbvio que ninguém faz isso
impunemente, o valor artístico está também atrelado a cada uma das
pessoas que foram ver o filme e também a uma brilhante direção (de
som inclusive) que conseguiu criar e definir esse personagem sem ter
que fazê-lo se expressar verbalmente.
43-
Speed
Racer Andy
e Larry Wachowsky 2008
O
blockbuster de 2008 que ninguém viu. Dos primeiros filmes que usa o
fundo azul, não só para criar um cenário que não existe, mas
também para extrair performances e movimentos de câmera que seriam
impossíveis sem um trabalho completo de animação por computador.
Talvez por isso ninguém o tenha visto, até hoje o que eu mais me
lembro do filme são as cores e a velocidade que elas tinham.
Primeira e real transcrição fiel da linguagem do mangá para a tela
grande.
42-
Donnie Darko
Richard Kelly 2001
É
raro fazer um filme de realismo fantástico que não passe por algum
nível de pastiche (o que Southland tales, seu próximo filme fará,
mas de maneira primorosa) Donnie Darko é isso, é o intermediário
entre a fantasia e a realidade, onde assim como para o
personagem-título, sentimos a sensação de estarmos ficando longe
demais do normal.
41-
Gran Torino Clint
Eastwood 2008
Clint
Eastwood num dos melhores papéis de sua vida, dirigindo um grupo de
não atores e fazendo um filme que é um petardo contra o
preconceito. Preconceito tanto da audiência com relação ao
protagonista quanto dentro dos personagens e da história.
Adiciona-se a isso as magníficas três ultimas cenas, da morte, do
testamento e do passeio de carro.
40-
The Bourne Ultimatum
(O Ultimato Bourne) Paul
Greengrass 2007
Mais
do que no vôo 93, Greengrass em Ultimato amarra a sua estética de
ação com câmera na cara e juntamente com Matt Damon cria o filme
de espião do século XXI: Insanamente rápido e difícil de
entender, mas profundamente aditivo. Prêmio de melhor movimento de
câmera pra câmera que segue o personagem Bourne quando ele pula de
uma sacada à outra; pulando junto com ele.
39-
Rachel Getting Married
(O Casamento de Rachel) Jonathan
Demme 2008
O
veterano de todos os tipos de produção, Jonathan Demme, analisa o
relacionamento familiar problemático (como são todas as famílias)
e sopra novo ar para o 'cinema independente americano' que parecia
andar em direção ao precipício de cheio de Pequenas Misses
Sunshines e Crashes. Além da superba atuação de Anne Hataway.
38-
We
Own the Night (Donos da Noite) James
Gray 2007
Corrupção
e redenção na noite Nova Iorquina. Matagal em chamas, pronto para
receber os mal-feitores no inferno, Relações complicadas de
família, relações complicadas dentro dos estados unidos, entre
irmãos, pais, filhos e gerações. Definição da máfia russa como
a principal força criminosa interna nos thrillers de crime
americanos.
37-
The Darjeeling Limited
(Viagem a Darjeeling) Wes Anderson 2007
A
parte mais famosa da obra de Wes Anderson está toda presente após a
virada do século, mas é esse mergulho europeu-indiano,
profundamente ligado com uma concepção visual, na alma americana
que se destaca mais. A mudança da família de protagonistas para os
três irmãos, a insolitez da sua viagem que existe mais porque cada
um deles tem de enfrentar os seus próprios preconceitos e o lirismo
do momento de união.
36-
There Will Be Blood
(Sangue Negro) Paul Thomas Anderson
2007
As
vezes eu não entendo como Daniel Day-Lewis fez Meu Pé Esquerdo.
Assim como em Gangues de Nova York ele interpreta aqui o retrato do
homem antigo, do homem forte que é capaz de tudo até ternura, mas
que ao sentir a aproximação do novo, do moderno se fecha ao mundo.
O título de Sangue Negro em inglês (traduzido livremente como
Haverá derramamento de sangue) o posiciona como uma espécie de
posfácio do século passado.
35-
Talladega Nights - The
Ballad of Ricky Bobby (Ricky Bobby: A Toda Velocidade) Adam
Mackay 2006
Will
Ferrell não perdoa ninguém. Não perdoa os europeus, não perdoa os
americanos e na melhor cena do filme não perdoa o bebê Jesus. Assim
como Falsa Loura, Talladega discute os efeitos da propagação de
certos ideias nas partes mais profundas e escondidas da sociedade;
fazendo você rir muito e com cenas de corrida maestralmente
dirigidas e montadas.
34-
Falsa Loura Carlos
Reichembach 2007
O
verdadeiro efeito da cultura de massa, longe da crítica vazia do
academicismo; na pele de quem vive as distorções criadas por ela.
Filme brasileiro com alma de filme brasileiro. Feito para quem já
foi o público de um cinema nacional, e que ainda não se achou nos
tempos de classe média e da 'retomada'.
33-
Hotel Atlântico
Suzana Amaral 2009
Mostra
de que não é necessário fragmentar para contar uma história
não-linear. O começo é o fim que quando terminar mais uma vez
começará de novo, ideia simples, realizada de maneira soberba e
precisa; peguntando: O que nos define?
32-
Buongiorno Notte
(Bom Dia Noite) Marco Bellocchio
2003
O
"pau" na itália da década de 70 "comeu solto". E assim como
no Brasil, ainda existem muitas roupas sujas a serem lavadas. Nesse
filme, Bellocchio lava um monte, e tranca a mise-en-scene em
um apartamento, onde assim como toda a Itália é 'forçada' a
conviver junta; a revolucionária convive com o sequestrado, com o
vizinho e com o roteiro do garoto conservador apaixonado por ela.
Nada sai como deveria sair, exceto o filme que é fantástico
31-
Monsters, Inc.
(Monstos S.A.) Peter Docter e David Silverman
2001
Fazer
uma lista é complicado, nem sempre você fica satisfeito, e as vezes
você faz sacrifícios em nome de valores artísticos e relega alguns
gostos pessoais por medo de pessoais em excesso. A Pixar merce estar
acima na lista, Monstros S.A. também. Monstros, porque e´uma
história mágica, daquelas que adoramos quando crianças e
procuramos arduamente quando nos tornamos adultos. A Pixar porque
eles são, coletivamente, sem sombra de dúvidas, os melhores e mais
confiáveis criadores de Hollywood; quiçá do mundo.
30-
The Pursuit of
Happyness (A Procura da Felicidade) Gabrielle Muccino 2006
O
filme que confirma o título de maior astro de Holywood a Will Smith.
Sensibilidade e força em uma história de superação contada de uma
maneira que fez Frank Capra se levantar do túmulo e aplaudir. A
muito tempo que não conseguiam contar uma história com tal teor
emocional sem cair no piegas; e faz todo o sentido que seja um
italiano a ter conseguido isso.
29-
Shijie (O mundo)
Jia Zhang Ke 2004
Talvez
o único e grande descendente estético de Antonioni. Jia Zhang Ke
praticamente explode o mundo com essa crônica da vida Chinesa e a
sua tentativa de conter o mundo em um parque de diversões. A China
(e a vida) da opulência e da pouca, ou nenhuma, recompensa.
28-
Chuen jik sat sau (Profissionais do Crime/Full Time Killer)
Johnnie To
e Wai Ka-Fai 2001
Uma
das provas que Hong Kong é muito mais que John Woo e Jakie Chan.
Andy Lau maravilhoso na homenagem aos filmes de ação bons,
maravilhosos e ruins. Discussão da força de uma parábola, de como
o discurso e as história que tomam parte das nossas vidas parecem
mais importante do que as mesmas. Tudo isso em meio a muito tiro e
ação muito bem dirigia.
27-
Mr. Brooks
(Instinto Secreto) Bruce A. Evans
2007
Inverta
tudo. Coloque um maníaco no controle, não o redima, mostre o quão
cruel ele é, que as máscaras nada servem e que ele não tem
preocupação com nada. Depois no final mostre como ele tem um fio de
preocupação deturpada. A audiência não vai gostar muito, quase
ninguém vai ver. Mas vá por mim, é um filmaço. O primeiro e
verdadeiro anti herói do século XXI.
26-
Femme Fatale Brian
De Palma 2002
Sonhos
são sutis. Sonhos parecem realidade, pesadelos mais ainda.
Reviravoltas, segredos e sexualidade à flor da pele. A força
acachapante da imagem e de um diretor que controla todas as suas
repercussões. Pena que a maioria das pessoas fica ofendida quando
alguém exerce tudo isso de uma só vez, provável que esse tipo de
filme demore ainda um bom tempo para reaparecer.
25-
Gruz 200 (Cargo
200) Aleksey Balabanov 2007
Rússia
nua e crua. A semi-evolução do cinema sovético; ou o que seria o
cinema soviético fosse ele capitalista. Hhistória bizarra que se
passa no final da União Soviética em meio à inclemência da alma
russa e do seu inverno. É a Rússia tentando se re-erguer em meio
aos seus cadáveres, em meio às perversões escondidas no armário e
uma geração de cegos que finge não ver o que aconteceu debaixo dos
seus narizes.
24-
L'Ennemi Intime
(Inimigo Intimo) Florent Emilio Siri
2007
Talvez
o realizador francês da nova safra mais interessante e menos
comentado. Culpa da 'indústria do cinema de arte'; que muitas vezes
aceita menos 'desvios' do que a indústria estabelecida. Talvez esse
filme não tenha sido comentado, porque é uma pedrada em todos os
intelectuais que olham para a frança e intendem nela o céu na
terra. Só se ela existir para causar incêndios na África, aqui
sim; um verdadeiro inferno.
23-
Elephant
(Elefante) Gus Van Sant
2002
Vários
olhares, várias tentativas de decifrar o indecifrável. Van Sant
foge do fácil, foge do óbvio, não tenta justificar ou condenar os
personagens, mas como quem olha um paquiderme de perto pela primeira
vez, sente-se pequeno, vazio e com uma lente muito grande para
entender o que acontece.
22-
Gangs of New York
(Gangues de Nova York) Martin Scorcese 2002
Se
fosse uma lista puramente de gosto pessoal, esse filme estaria muito
acima. Não é um filme, mas uma epopeia sobre a criação do mundo
moderno, ali estão, em um micro cosmo, todos os conflitos de
relevância do século XX. Toda as vezes que começo a falar/escrever
sobre esse filme, tenho que me forçar a parar, se não não para
nunca.
21-
Lost in Translation
(Encontros e Desencontros) Sofia Coppola 2003
Tudo
o que o 'cinema independente americano' quer ser; inteligente,
espirituoso, denso e poético. Dinossauros que caminham por Tóquio,
encontram uma garota perdida em busca de fantasmas e vida nova.
Acabam levando ela e um velho senhor que abandonou a vida a viverem
um conto de fadas fugidio. Além da ótima direção, a escalação
dos atores para os personagens principais é perfeita.
20-
Serras da Desordem
Andrea Tonacci 2006
É
engraçado como certos filmes são fadados a poucos públicos. Esse
docu-drama que mistura encenações pelos próprios protagonistas da
parte 'docu', é de difícil aceitação para todos, a re-encenação
dos acontecidos pelos próprios protagonistas parece canhestra.
Parece pois revela a existência da câmera e a influência que essa
causa na própria realidade registrada. Filme Brasileiro mais
complexo dos últimos tempos.
19-
The New World (O
Novo Mundo) Terrence Malick 2006
Não
é Pochahontas, não é simples e não é fácil. É lindo de uma
maneira que é difícil explicar e difícil reproduzir, acaba com o
ideal de bom selvagem mas consegue ser idílico ao mesmo tempo. Pena
que Malick faça um filme por década, pena que poucos tenham visto
essa maravilha imagética no cinema.
18-
Mary (Maria) Abel
Ferrara 2005
Quando
a razão tenta explicar a fé, a fé verdadeira e séria deixa ela
tentar. Assim como a fé sabe que razão não vive sem ela e
vice-versa, Abel Ferrara sabe que para fazer um filme sobre esse
assunto o melhor é não tentar explicar nada e nos deixar tentar
'digerir'.
17-
The Village (A
Vila) M. Night Shyamalan 2004
Como
metáfora ou não dos Estados Unidos pós 11/9, o último grande
filme da série inicial de Shyamalan é seu divisor de águas. Ame-o
ou deixe-o. O mistério da história, sobrepões o lirismo e o
humanismo que esse diretor impõe aos seus personagens e à metáfora
que infelizmente foi dragada e relegada a unicidade de interpretação
dentro de um espectro político específico, que em um primeiro
momento reduziu a capacidade de interpretação das pessoas frente ao
filme.
16-
Bug (Possuídos)
William Friedkin 2006
Conciso,
amarrado, esquizofrênico, apertado. A paranóia do mundo reduzida a
um casal, perdido em meio à essência da ‘deep America’. Desde o
plano incial, à localização do quarto e ao final do filme;
Friedkin demonstra domínio total da linguagem. É um prazer vê-lo
Friedkin em tão boa forma.
15-
Coeurs (Medos
Privados em Lugares Públicos) Alain Resnais 2006
Resnais
volta com um filme ‘pequeno’ mas de grande poesia. A análise dos
interlaçamentos e ligamentos entre pessoas diferentes no começo do
inverno (real e de suas vidas) resulta num ótimo filme do grande
veterano do cinema atual.
14-
The Hurt Locker
(Guerra ao Terror) Katheryn Bigelow 2008
Katheryn
Bigelow faz o retrato mais pungente da guerra no novo milênio. Dos
seus porquês apolíticos, de quem faz parte dela sem cair em
discurso contra ou a favor. Faz tempo que alguém desenvolve tanta
coragem de analisar uma situação atual sem um julgamento à priori.
Poético e brutal.
13-
Salinui Chueok
(Memórias de um Assassino) Bong Joo-ho 2003
Eu
queira colocar Host (O Hospedeiro) aqui, até coloquei, mas a força
do segundo filme do mesmo diretor, me parece muito maior que o
sucesso internacional do seu próximo filme. Talvez pelo fato de ser
uma história/não história verídica e a capacidade que o filme tem
de passar a letargia do interior, a sensação de mesmice na curva da
modernidade, aonde a nossa capacidade de estabelecer e atribuir
sentido pouco a pouco se esvai.
12-
I’m Not There
(Não Estou Lá) Todd Haynes
Todd
Haynes cria uma colcha de retalhos que não tenta recriar a biografia
de um mito, mas, sim mitificar a biografia de uma pessoa. Da baleia,
às referencias à Butcassidy e Cate Blanchet perfeita como o Bob
Dylan da contra cultura; ele faz jus ao mestre Dylan e faz um resgate
do significado de Buñuel e Jodorowsky para o cinema americano
contemporâneo.
11-
Munich (Munique)
Steven Spielberg 2005
Poderia
praticamente dizer o mesmo que disse pro filme acima para Munich de
Steven Spielberg, que ‘jogou no lixo’ o exagero de
sentimentalismo de Lista de Schindler e faz um dos melhores filmes
sobre vingança . Isso porque os vingadores não são nada diferentes
dos alvos da vingança. O filme também exerce no espectador o mesmo
sentimento de perda no mundo que os personagens sentem, ao tentar
exercer uma vingança, parece ser contra ninguém, contra o
inevitável.
10-
Children Of Man
(Filhos da Esperança)Alfonso Cuarón 2006
Futuro
distópico, sem discussão exagerada, sem porquês demais. Nesse
filme de Cuarón; o porque é menos importante que o fato, possuímos
esperança, porque possuímos esperança. Recheado de planos de
sequência complicadíssimos e com belíssima atuação dos atores
principais. Um primor de direção e roteiro; enfim, D C (du
caralho)!
9-
Bamboozled (A Hora
do Show) Spike Lee 2000
Abrindo
a década, um misto de digital com pelicula 16mm, essa sátira ao
preconceito racial americano, ressoa na eleição de Barak Obama, na
reação exacerbada dos americanos e do mundo ao fato de ele ter
descendência negra, e do excesso que se espera dele, em parte, por
possuí-la. A relação entre a sociedade de consumo e a cultura
sendo entremeada por meios de captação diferentes termina o motivo
pelo qual ele está entre os dez melhores.
8-
Zwartboek (A
Espiã) Paul Verhoeven 2006
Verhoeven
de volta às origens, tratando da culpa Holandesa, da cicatriz
mercantilista que eles (e cada vez mais todos nós) carregam.
Dialogando com a invasão, a sobrevivência e as reais necessidades
do ser humano. Mostrando como o controle Orwelliano não está tão
longe de nós, e que a idéia de que o povo é quem deve fazer todas
as escolhas é uma falácia, ao mesmo tempo mostrando as mazelas do
totalitarismo. Escroto e, como sempre, verdadeiro; para onde vamos?
7-
Redacted Brian
De Palma 2008
Há
algum tempo Brian de Palma discute o anti-cinema, a anti-história.
Aqui ele mistura de tudo, desde documentários franceses com estética
completa e rebuscada, câmeras de segurança, filmes 'caseiros' e
vídeos de propaganda ideológica do Youtube. Criando um mosaico do
mundo pós início da revolução digital/da informação, onde ainda
existem muitos territórios inexplorados; principalmente a alma
humana.
6-
Sen to Chihiro no Kamikakushi(Viagem de Chihiro) Hayao Myasaki 2001
Myazaki
já era conhecido fora do Japão, mas não por todo mundo. Depois
desse filme, é difícil o esquece ou perdê-lo de vista. Ele costura
uma mistura de Cinderela ao contrário com o Fantasia. Um filme
profundamente oriental e ainda assim completamente universal. É o
filme de onde veem algumas das imagens mais bonitas e interessantes
desse novo século.
5-
Mystic River
(Sobre Meninos e Lobos) Clint Eastwood 2003
A
culpa e o perdão sem passar pela redenção, a suspeita e a ação.
História de complexidade e profundida psicológicas que vão além
do murder-mistery que inicialmente é retratado. Além de ser
uma pungente crítica ao nosso sistema social, sem aparentemente
falar nada sobre ele. O filme que talvez possua a melhor atuação de
um grupo de atores da década.
4-
The Aviator (O
Aviador) Martin Scorcese 2004
A
história do cinema contada em imagens, sem introduções ou
explicações de que esse é um dos temas centrais do filme. Prova
concreta de que Leonardo DiCaprio é um dos melhores atores vivos,
pessoalmente prefiro Gangues, mas Aviador me parece mais importante,
criou/cria maior repercursão. Ele é em si, um filme que lida com a
congurência de mídia, com a relação que estabelecemos com as
'celebridades' (os substitutos dos deuses e santos, capazes de
esmagar aviões com um soco). Agora, quem é mais esquizofrênico?
Howard Hughes ou você que não sentiu nojo das ervilhas azuis?
3-
Zodiac (Zodíaco)
David Fincher 2007
A
noite entra no cinema. Enquanto em Miami Vice o digital tem o seu
debut de potencial total criativo, Zodíaco aprofunda a possibilidade
de realidade trazendo pela primeira vez uma noite que parece
palpável. É 1970, mas nós estamos lá; caçando o criminoso junto
com Jake Gylenhaal, vendo como essa caça envolve menos excitamento e
mais dúvidas e emoções conflitantes.
2-
Avatar James
Cameron 2009
“Avatar
não é um filme, é um evento. Ainda não estreou, mas já compõem
a lista. Ultra produção, tecnologias novas feitas especialmente
para o filme e a volta do diretor que na década passada criou o
maior número de momentos citados por outras mídias.” Isso é o
que eu escrevi antes de ver o filme, pois é, demorei bastante pra
fazer essa lista com comentários... A sensação que tenho é de
estar em um momento histórico do cinema parecido com a época de “O
Vento Levou”. E Avatar, queira ou não queira começou um movimento
que ainda não consigo entender; seja ele de um canto do cisne do
cinema, seja ele de um ciclo de renascimento.
1-
Miami Vice Michael
Mann 2006
A
relação entre uma série televisiva da década de 80, o uso de
técnicas digitais a serviço da história, e de maneiras não vistas
até então. Encabeça lista porque é dele, que virão as
possibilidades de novas representação, o filme de Michael Mann é o
arcabouço de onde o cinema digital irá aprender os seus truques,
quase como que o Cidadão Kane de uma nova época.
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