Home arrow Ferrarista arrow Lista dos Filmes da Década 2000-2009 29 de julho de 2010
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Lista dos Filmes da Década 2000-2009 PDF Imprimir E-mail
Por Ferrarista   
2000s

Como analisar a década de 2000 no cinema?


Comecemos com o que diferencia ela das outras décadas. Essa década é a década da chegada do digital, é a década na qual 98% da produção cinematográfica passa por processos digitais, desde maneiras novas de manipular a imagem, quanto dprocessos inteiramente digitais. O digital está se tornando para o cinema, o que foi a tinta a óleo na pintura. Ele está mudando radicalmente a forma como se capta e pode se distribuir imagens. A noite nunca foi tão real quanto pode ser hoje.

Ela é também a década da radicalização, da separação mais radical entre a "arte" e o espetáculo. A década da disseminação dos festivais, e da solidificação do 'filme de festival', do começo do conflito real entre o cinema e as novas formas de difusão de cultura. Uma lista como essa, começa com uma reflexão de como os filmes apresentados são e serão percebidos dentro de um futuro realmente desconhecido, qual é a importância deles para o cinema como expressão cultural no novo milênio.

Ah, caso você queira me xingar, já que estamos com problemas com os comentários, o email para isso é: Este endereço de e-mail está sendo protegido contra spam. Você precisa ter o Javascript habilitado para lê-lo

P.S.: A lista está abaixo, e invertida só para você ter que passar por tudo mesmo...

 

100- La Ciénaga (O Pântano) Lucrecia Martel 2001

Lucrécia Martel, faz hoje o melhor do cinema latino americano que tenho contato (exceto o brasileiro). Ela faz o que grande parte do cinema nacional tenta e não consegue. Ser lírico retratando o nada, a imutabilidade os semi excessos, os semi excluídos, aqueles que estão se segurando para não escorregarem pelas frestas da

99- 'Coringa' Heath Ledger 2008

Se você me conhece sabe que eu não gosto do Cavaleiro das Trevas (o filme, é claro). Acho moralista, arrastado, muito cristão americano (no mal sentido). Mas acho a atuação de Heath Ledger nesse filme magnífica, uma coisa incrível, que vi poucas vezes no cinema; uma pena que esse papel tenha causado a sua morte, não acho “sacrifício pela arte" válido. O Coringa de Heath Ledger é uma força da natureza, acontece, não se justifica não pede passagem é um lado que todos temos, que tentamos esconder, e que ele provavelmente morreu ao tentar devolvê-lo para o lugar de onde veio.

98- Caché (Michael Haneke) 2005

Haneke fala nesse filme da Europa, da nova paranoia pós 11 de setembro e 18 de março. Da hiper vigilância, do entendimento da migração como um problema de ameaça à cultura europeia, da culpa com o que foi feito e não pode ser mudado, da violência quase gratuita, sem aviso, mas com consequências graves.

97- Hak se wui yi wo wai kwai (Eleição 2) Johnie To 2006

Ninguém presta nesse filme, mesmo. É um dos casos estranhos no qual o filme é feito para você se identificar e 'torcer' para o 'menos pior' ainda mais depois de ver o primeiro e saber que o menos pior do primeiro filme é o escroto desse. Submundo retratado como realidade, apesar de ser uma ótima ficção e Johnie To dominar a direção magistralmente. Esse e o primeiro filme mereciam um posto mais alto, mas essas coisas de fazer lista são complicadas.

96- Into The Wild (Na Natureza Selvagem) Sean Penn 2007

Sean Penn devia calar a boca e fazer filmes, tanto como ator quanto diretor. A força da história que ele conta, é contraposta com a levez que você é levado a se debruçar por sobre essa história e conhecer seu personagem. Nem todas as jornadas de auto descobrimento, nem todas as histórias de maturidade são perfeitas, mas algumas valem a pena serem contadas.

95- Wedding Crashers (Penetras Bom de Bico) David Dobkin 2005

Um grupo de amigos meus começaram a bancar os penetras em casamento depois de verem esse filme, tem uma amigo meu que é louco até hoje para fazê-lo. A inocência e a diversão, o fator vamos-aproveitar-a-vida desse filme são cativantes, afora o fato de que em certos momentos ele é de chorar de rir.

94- Ghosts of Mars (Fantasmas de Marte) John Carpenter 2001

John Carpenter é dos cineastas mais 'odiados' dos Estados Unidos, poucos gostam, ou, até, veem seus filmes; mas ele continuamente introduz novos gêneros e indica novos caminhos futuros para hollywood. Fantasmas de marte possui uma lógica interna que se assemelha a um video game, e é uma reinterpretação do tema contido em Vampiros de Alma; uma fábula de ação e horror. 

93- L'ivresse du pouvoir (A Comédia do Poder) Claude Chabrol 2006

Isabelle Hupert, mostra como ela e Chabrol estão em ótima forma nesse drama pessoal disfarçado de thriller de corrupção, que ocorre de forma quase transcendental, uma história que poderia acontecer em qualquer lugar, mas por decisão do destino ocorre na França.

92- Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan (Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América) Larry Charles 2006

Só o título já é suficiente para deixar com pulga atrás da orelha. Com esse filme Sasha Baron Cohen pulou de ser um comediante com um show underground de fim de noite, para uma estrela mundial quase que instantaneamente. A impressionante atuação de Baron Cohen serve para desarmar uma série de tipos clássicos dos Estados Unidos da América; criando um semi-documentário chocantemente engraçado sobre a relação deles com o diferente.

91- Dodgeball: A True Underdog Story (Com a Bola Toda) Rawson Marshall Thurber 2004

Recheado com algumas das gags mais idiotas e mais absurdas dos últimos tempos, só de pensar nesse filme eu começo a rir e pensar em vários momentos que eu consigo citar de cabeça... Revejo-o com prazer a qualquer hora.

90- Youth Without Youth (Velha Juventude) Francis Ford Coppola 2007

Mais um da sequência "não foi feito para ser entendido", mas sim sentido. Coppola volta à fazer um filme digno de parte da sua história cinematográfica, abrangendo uma série de mistérios e teorias sobre o que faz o ser humano para no fim descobrir que o que faz o ser humano são os outros seres humanos, e não uma teoria sobre o primordial, e que por mais que tentemos, nada nos impede de ter o mesmo final do resto dos mortais.

89- Southland Tales ( Southalnd Tales - O Fim do Mundo) Richard Kelly 2006

Se no filme acima era difícil entender o que acontecia, nessa alegoria/filmecatatrofe/sátira/musical/fábula de como o mundo-sociedade termina, certas partes são feitas para não serem entendidas, mas saboreadas, aproveitadas. Richard Kelly faz, o filme dessa lista, que talvez ganhe mais com o tempo, que vire mais importante e pungente; que resuma certas partes do começo do século, da sensação eterna de mudança e morte do velho que eternamente sentimos.

88- Basic (Violação de Conduta) John Mctiernan 2003

Nada, mas nada mesmo é o que parece no roteiro de James Vanderbilt nesse thriller de Mctiernan, até a floresta panamenha e a chuva quase incessante parecem ser suspeitas de algo. Um filme de 'ação' sem ação, completamente psicológico e intrincado, frustrante, porque mesmo quando explica te deixa meio no ar. Não fez muito sucesso na época porque não tem momentos óbvios e lembro que muita gente saia confusa/frustrada do cinema (pode ser também porque pra esse tipo de filme a legenda brasileira não ajuda nada...).

87- The Royal Tenembaums (Os Excêntricos Tenembauns) Wes Anderson 2001

O filme que chamou a atenção para Wes Anderson no Brasil, uma sátira sensível do que é ser uma pessoa que vê mais longe (em certos assuntos) do que os outros vêem, a solidão que vêm associada a isso; unida ao paradoxo de fragilidade/força das relações familiares como um todo.

86- Idiocracy Mike Judd 2006

Ah como eu queria que esse filme tivesse saído pós Obama só para ver a reação das pessoas frente a um presidente negro que é uma trolha e usa uma arma no congresso, num filme cuja a tradução literal é: Idiocracia. Os americanos iriam ficar loucos, metade achando que isso era exatamente o que o Obama faz, metade achando absurdo falar isso dele. E iam todos, sem exceção passar por cima do fato, de que esse filme está na verdade chamando todos nós de burros. Burros por confiarmos em corporações mais do que confiamos em amigos, burros por acreditar nos rótulos, burros por sermos intelectuais complicados com conflitos existenciais. E no final todos nós rimos muito dessa comédia genial de humor negro (só para não perder a piada infame: negro como o atual presidente americano – que ta mais pra café com leite...)

85- Land of the Dead (Terra dos Mortos) George A. Romero 2006

Romero atira para todos os lados, para a indústria do entretenimento que seria o análogo aos fogos de artifícios usados no filme para apaziguar os zumbis, para a sociedade de massa que eleva a entretenimento bizarrices, para a sociedade de classes capitalista. Os zumbis começam pouco a pouco a recobrar algo de uma certa humanidade que possuíam, sendo mais humanos do que os que ainda possuem 'consciência' em meio à brutalidade da tentativa de reeguer uma sociedade no pós apocalipse.

84- Hunted (Caçado) William Friedkin 2003

Friedkin constrói um filme puramente masculino, um filme que lida com a imersão completa e a perda de referência advinda da mesma. A luta é entre a masculinidade de Benicio del Toro e Tommy Lee Jones, que frente a situações extremas começa cada vez mais a virar um traço animalesco, e assume-se a relação de caçador presa, do homem despido daquilo que existe de humanidade, fadado a sobrevivência pura.

83- Inland Empire (Império dos Sonhos) David Lynch 2006

Mergulhar na alma/consiência de um artista é sempre difícil e exigente de quem o faz; ainda mais quando é David Lynch que lhe pede que faça isso. Filmado em digital de baixa resolução, distribuído de maneira nunca feita antes (DVD, cinema e internet, tudo de uma vez só). Lynch utiliza-se maravilhosamente das possibilidades que o meio escolhido lhe oferece, usando o branco e o preto profundos de maneira magistral para que entendamos/entremos na insolitez que a(s) personagem(s) de Laura Derna passa(m).

82- La Meglio Gioventù (O Melhor da Juventude) Marco Tulio Giordana 2003

Esse épico de seis horas, do qual não se ouviu falar muito fora da Itália ou do festival de Cannes, onde foi ganhador do Un Certain Regard; talvez, justamente, por possuir seis horas de duração. Uma atualização, re-imaginação de Rocco de Visconti; abordando a Itália, e uma família italiana, em um país semi-fragmentado que começa se transformar em uma país de primeiro mundo e lutar com a sua rebeldia indissociavelmente italiana. Possui momentos de beleza profunda.

81- Kantoku · Banzai! (A Glória do Cineasta) Takeshi Kitano 2007

Homenagem à realização do cinema em geral, como extrair "suco" ou material bom abordando os gêneros na usa essência e continuando a ser profundamente japonês. A segunda parte do filme é uma comédia escrachada japonesa de difícil apreensão para que não está acostumado com a sociedade nipônica.

80- Mou Gaan Dou (Conflitos Internos) Lau Wai-Keung e Alan Mak 2002

Alvo do remake ganhador do Oscar de 2006 Infiltrados, o original de Keung e Mak é mais pungente, mais seco. Uma análise de como na sociedade moderna a simbiose entre um homem e seu trabalho pode destruí-lo, especialmente no mundo oriental. Dois homens lutam contra si mesmos e um contra o outro em busca de descobrir tanto sua essência, quanto a escapatória da prisão que a sociedade impõe a eles. Pena que a trilogia acabou não chegando por aqui.

79- Tropa de Elite José Padilha 2007

Torcedores suecos, baladas na Itália e vencedor do festival de Berlim. Esse filme que subverte a relação de forças tradicional na boa cinematografia brasileira conseguiu de forma pungente se infiltrar na cultura nacional, e deixou sementes em culturas radicalmente diferentes das normalmente atingidas pelo cinema nacional. Não é zero dois?

78- Hable con Ella (Fale com Ela) Pedro Almodóvar

Filme sobre a dificuldade de recomeçar, de superar e esquecer; às vezes perdoar. Além do valor intrínseco de uma obra profundamente humanista, ainda consegue transformar, subverter o que seria um grande vilão,em um ser adorável e empatizante.

77- Mulholand Dr. (Cidade dos Sonhos) David Lynch

Apesar de ser quase um desserviço, o título em português revela uma (das muitas) faceta(s) desse filme: a relação que ele estabelece com o onírico. Talvez até de maneira mais forte do que o Império dos Sonhos, esse é um filme de mergulho na personalidade de um cineasta. Um filme que se apresenta como quebra-cabeças sem solução, mas que te implora para ser resolvido, para que se tente uma solução à si mesmo. Se eu estivesse escrevendo para uma publicação de tecnologia; o chamaria de “um filme 2.0”.

76- Public Enemies (Inimigos Públicos) Michael Mann

Crise/mudança de valores na sociedade americana do começo do séc XX, aliada à mudança do papel e da forma do cinema do começo do séc XXI. Gerando uma ultra realidade, um Estados Unidos dos anos trinta que parece existir escondido em algum lugar por entre as frestas da nossa consciência, ou os bits da câmera digital de Michael Mann.

75- Inglorious Basterds (Bastárdos Inglórios) Quentin Tarantino2009

Tarantino funda aqui uma nova mítica, é com esse filme que pela primeira vez - de maneira violenta e recheada de borracha sangrando- em que a figura de Hitler e do nazismo como força política pode deixar de ser tratada somente com precisão histórica pelo grande cinema. Fazendo isso, Tarantino aborda uma das principais e mais negligenciadas características nazistas; (porque o todos os ismos, desde fanatismo até o Lulismo a possuem) seu amorfismo.

74- Paranoid Park Gus Van Sant2007

Apesar de todos os artifícios da vida moderna, de todas as facilidades e regalias que possuímos nela; ainda somos humanos. Ainda nos culpamos, ainda sofremos e achamos que conseguiremos sobreviver apesar das coisas, só para descobrimos que seremos obrigados a carregá-las, como ao celular que não largamos.

73- Anchorman: The Legend of Ton Burgundy (O Ancora: A Lenda de Ron Burgundy) Adam Mckay

Não leve ninguém a sério, faça as pessoas rirem e construa uma ferrenha crítica social sem ninguém perceber direito que isso acontece... Essa é a fórmula de “O Âncora”, que sutilmente destrói o stablishment da mídia, transformando repórteres em gangues organizadas, mais preocupados com o nascimento de um panda do que com qualquer outra coisa realmente importante. “Stay classy, San Diego”. 

72- Girl Next Door (Um Show de Vizinha) Luke Greenfield

Era para ser um 'star vehicle' para Elisha Cuthbert, conhecida tão somente como a filha do agente secreto Jack Bauer em '24 horas'. E acabou virando uma versão do século XXI, pré crise financeira, de “A Primeira Noite de um Homem” com a diferença que dessa vez, quem esconde o segredo não é o garoto, não é mais só ele o responsável pelas relações e pela maior parte das trapalhadas. É também um pouco mais comédia e um tanto quanto mais açucarado, ainda assim, muito bom.

71- King Kong 2005 Peter Jackson

Uma verdadeira homenagem faz referência, mas se apropria, remolda e transforma em seu o que está sendo homenageado. Peter Jackson re-cria para uma audiência contemporânea o amor impossível de Kong pela donzela e estabelece novas fronteiras artísticas para o uso da computação gráfica como elemento narrativo e de interpretação.

70- 50 First Dates (Como Se Fosse a Primeira Vez) Peter Segal

Um amigo meu, certa vez mostrou esse filme para um grupo de velinhas. No Intervalo da exibição elas reclamavam de quão grosseiro e bobo o filme era. Ao final da sessão todas tinham adorado o filme, já eu rolei de rir quando vi a primeira parte. Só o fato de atingir a audiências radicalmente diferentes é um mérito em si, fazê-lo sem perder respeito ao seu assunto e fazendo de maneira verdadeiramente engraçada é um mérito e tanto! 

69- Tropic Thunder (Trovão Tropical) Ben Stiller2008

Tiro no saco de todo mundo. Bem Stiller volta à direção, arma a metralhadora e atira para todos os lados possíveis, acertando todo o espectro da vida Hollywoodiana e de produção de um filme. Ainda consegue extrair a raridade de conseguir uma indicação ao Oscar de um ator em um filme de comédia escrachada.

68- Black Dahlia (A Dália Negra) Brian De Palma2006

De Palma tem constantemente se recusado a contar histórias de maneira convencional, apesar de insistentemente aplicar formas que pareçam pertencer a um modo mais convencional de contar histórias. No melhor noir colorido, De Palma faz com que aceitemos e entendamos porque Josh Hartnett quase chuta a bunda de Scarlett para trocá-la por Hillary Swank.

67- Ali Michael Mann2001

Primeiro uso sério de câmeras digitais em uma grande produção hollywoodiana. Câmeras, que justamente servem para revelar, desvendar o que não conhecemos, ou entendemos errado de certos processos. Assim como Ali parece possuir uma visão única, que certas vezes se prova correta, certas horas existe devido à um excesso de fúria e orgulho. Aula de como criar um filme que, assim como o seu protagonista/personagem real, quebrou com as expectativas de todos.

66- Unbreakable (Corpo Fechado) M. Night Shyamalan2000

A lógica nunca salvou ninguém. E não necessariamente, salvará. Salvação é algo muito mais próximo do divino e da dificuldade do que simplesmente engendrar um plano no escuro da sua casa, que abarque outras vidas a um custo maior do que você estaria disposto a pagar. No cinema, assim como na natureza e na religião, a maioria das coisas tem um oposto, e as grandes histórias nem sempre falam sobre o confronto, mas muitas vezes sobre a descoberta desse nêmesis.

65- No Country for Old Men (Onde os Fracos Não Tem Vez) Irmãos Cohen2007

O delicioso confronto entre os três atores principais, é um pouco diminuído pela tradução em português do título (que em uma tradução livre do original seria algo como: Não é um país para velhos). Que na verdade fala/se estende para parte da civilização ocidental, aquela que se entende e identifica com vários aspectos da vida americana, em uma das melhores adaptações de um western para os tempos modernos.

64- Hollow Man (O Homem Sem Sombra) Paul Verhoeven2000

Porque você segue regras? E o que você faria se ninguém soubesse se você quebrou as regras. Num desafio técnico incrível para a época (fazer com que um ator parecesse invisível, mas reagisse de maneira realística a coisas como agua caindo sobre ele), Verhoeven vai fundo na alma humana e cria uma história que remete a parte do começo da literatura de terror no séc. XIX: o medo da tecnologia. Não pela tecnologia como um fato em si, mas pela liberdade extrema que pode dar ao homem, e a nossa incapacidade de lidar com essa chance de liberdade, seja como indivíduos ou sociedade.

63- Shaun of the Dead/ Hot Fuzz (Todo Mundo Quase Morto/ Chumbo Grosso) Edgar Wright2 004/2007

Ambos os filmes feitos pelo grupo diretor/atores que seu uniu na TV britânica (fazendo o genial seriado Spaced) são uma novo sopro para a comédia e para os filmes independentes em geral. Parte de uma gerção pós-internet, Edgar Wright e trupe fazem um 'catado' de homenagens e paródias a filmes de ação e terror e criando ótimas cenas de ação em meio a gags absurdamente engraçadas, com frescor que não se vê facilmente no cinema atual.

62- The Queen (A Rainha) Stephen Frears

Quanto tempo as coisas ainda demoram para passar? Como uma mulher que viu o mundo moderno nascer das cinzas da Europa pode ter que lidar com tantos (e tão complicados) fatos públicos que entraram na vida coletiva sem pedir licença? Helen Mirren como rainha consegue resumir algumas facetas das respostas e dar vida e força a uma realeza quase palpável, que não precisa, nem quer um “star system”; mas sim continuar a zelar pelo seu país.

61- El Laberinto del Fauno (O Labirinto do Fauno) Guillermo Del Toro2006

Um conto de fadas moderno -sombrio como os pós-medievais que conhecemos- que pegou o mundo de assalto. O confronto entre a visão adulta embebecida pelo prático do viver, em oposição à ingenuidade infantil. Como usar efeitos reais melhores e mais baratos que os de computador... Uma aula de cinema com quem aprendeu muito bem com o começo do blockbuster de efeitos especiais.

60- A History of Violence (Marcas da Violência) David Cronenberg

Se o passado ainda não lhe condena, irá te condenar um dia. E cabe aos fortes de alma e coração conseguirem se reconstruir das cinzas e reafirmar seus projetos e quereres frente à sociedade e àqueles que ama. Quase que um filme sobre a trajetória do próprio diretor, que faz um filme pesado sobre as vicissitudes do ser humano.  

59- Kill Bill 1&2 Quentin Tarantino 2003-2004

A saga de vingança de Tarantino é também uma saga de lembrança dos gêneros de filmes que normalmente tem essa temática. Pensado inicialmente como um filme divido em duas partes; em verdade eles possuem formas estilísticas bem diferentes e autônomas entre si. A imagem de Uma Thurman de amarelo, segurando uma katana é algo inesquecível. David Carradine está brilhante.

58- Låt Den Rätte Komma In (Deixe Ela Entrar) Tomas Alfredson 2008

Apesar da saga crepúsculo há lugar, sim no séc XXI , para uma reinterpretação inteligente do principal monstro do cinema. Tomas Alfredson cria uma nova leitura de vários mitos vampíricos através de uma lente mais “realista”, a noite eterna Sueca e o problema de “bullying” que aflige a maior parte do mundo desenvolvido, complementando, a cena da piscina é algo de maravilhoso.

57- Hey Yan Quan (Eu Não Quero Dormir Sozinho) Tsai Ming-liang 2006

Num mundo global, não significa que todos falemos as mesmas línguas, o que não nos impede de nos comunicar, nos relacionar e precisar de alguém. Dos cineastas mais líricos dos últimos tempos, Ming-Liang, cria um mundo pobre e avassalador, que consegue tirar beleza e certa doze de alegria-felicidade de tragédias globais e pessoais.

56- Sanxia Haoren (Em Busca da Vida) Jia Zhang Ke 2006

O título internacional, Still Life complementa muito bem o título brasileiro, a história de trabalhadores chineses que tentam reconstruir os seus caminhos durante a desocupação de uma cidade para a inundação que será feita pela Hidroelétrica das Três Gargantas. Junto com seu documentário-irmão Dong esse filme é a vontade de abandonar a China da revolução cultural, com a força e resistência de quem quer entender e talvez mudar um futuro incerto; tudo isso transformado na poesia visual de um prédio que parte em direção ao espaço como um foguete; como que para ver o mundo como uma Natureza Morta (tradução literal do título internacional).

55- Apocalypto (Apocalypto) Mel Gibson 2006

Mel Gibson foi uma das maiores estrelas da década de noventa. Nessa década, ele resolveu atacar principalmente como diretor, expondo os interiores de personagens bíblicos e de uma miríade de Maias e indígenas da America Central pré-colombiana. Com uma filmagem quase documental, usando muito bem as possibilidades do digital e criando um universo opressivo e assustadoramente real.

54- Me Myself & Irene (Eu, Eu Mesmo e Irene) Peter e Bobby Farrelly 2000

Falta de respeito. É disso que a verdadeira comédia precisa. Comédia que respeita valores politicamente corretos, é boba e merece ir para o horário das 7 da televisão; tipo Friends. O anão negro pode sim, ser uma espécie de vilão. O personagem principal, com dupla personalidade cinematográfica, pode se envolver em sexo selvagem com a mulher amada sem saber. E que os irmãos Farrelly continuem fazendo filmes de mau gosto que me façam rolar no chão de rir, adoro fazer isso!

53- The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans (Vício Frenético) Werner Herzog 2009

Uma das grandes polêmicas no mundo do cinema nesse ano. Abel Ferrara deu declarações de que queria matar todos envolvidos no projeto, de que o filme era absurdo, entre outras coisas. Talvez porque ele não o tenha visto, Nicolas Cage volta aos tempos de Vivendo no Limite, e entrega uma performance fantástica, as câmeras-lagarto e a estrutura solta quase que de brincadeira mais do que justificam esse Herzog nessa lista.

52- O Cheiro do Ralo Heitor Dhalia 2006

Mas eu quero pagar” – Diz Lourenço o personagem principal na parte deveras escrota (e a melhor) do filme de Heitor Dahlia. Arrisco dizer que desde de “O Bandido da Luz Vermelha” o cinema brasileiro não tinha um anti-herói tão eficaz, pena que ele (o anti-herói) derrapa no meio do filme e existe uma certa redenção/punição. Eu colocaria esse filme muito acima na lista, caso ele continuasse escroto e fiel até o final do mesmo.

51- John Carpenter’s Cigarette Burns (Sem tradução) John Carpenter 2005

Vários filmes estão nessa lista (não só porque) falam sobre o cinema. A diferença é a prevalência (do mais importante) ponto de vista, o do espectador. Que se transforma e dialoga com aquilo que foi feito, quase como um Chamado melhorado mil vezes, essa declaração de amor ao cinema projetado na ‘tela prateada’ é um Horror de primeira qualidade. Pena que pouca gente viu e verá qualquer uma das duas temporadas do ‘Masters of Horror’. Programa de telefilmes -que não existe mais- do canal americano Showtime.

50- Se Nada Mais Der Certo José Eduardo Belmonte 2008

Coisa de cinéfilo; quando eu vi esse filme, dei sorte de vê-lo na mostra do ano passado, fiquei completamente impressionado e feliz de que o diretor estava ali perto, presente. Com a força e agilidade de um Cassavetes contemporâneo, esse filme segue essa trupe de assaltantes/pessoas do submundo. Marginais, no senso estrito da palavra, através de uma aventura/saga sem objetivo claro ou chegada, exceto, talvez, a sobrevivência.

49- Goya's Ghosts (Sombras de Goya) Milos Forman 2006

Milos Forman dirige esse chute no saco do artista como ser necessariamente bondoso. Ótima encenação histórica e brilhante atuação de Javier Bardem e Natalie Portman; numa história sobre relações de paternidades não resolvidas: Europa-América, Igreja-Revolução, Artista-Obra, Pai-Filha.

48- The Brown Bunny Vincent Gallo 2003

Do Boquete de Cloë Sevigny, da vaia em Cannes, dos planos parados e muito silêncio da vida de um homem sozinho e torturado. Virou o filme cult dos cults, fez com que Vincent Gallo abandonasse os projetos de direção futura dele. É também digno de uma critica muito maior, sendo mais explicação que o que esse simples parágrafo conseguiria: irá só confundir e estranhar mais ainda.

47- Ocean's Twelve (Doze Homens e um Segredo) Steven Soderberg 2004

Soderberg fez o mundo tremer no final da década de oitenta, e o Oscar também com Traffic e Erin Brocowich. Mas nada melhor do que quando ele resolve não se levar a sério e brincar de gastar alguns milhões de dólares com um grupo de amigos figurões de Holywood. No melhor e mais despretensioso filme da série, a brincadeira de Soderberg, Clooney e companhia fazem é uma ótima maneira de discutir até onde o cinema vai, e o quanto é exigido de que audiência participe do que está acontecendo, para se ter um filme.

46- Pride & Prejudice (Orgulho e Preconceito) Joe Wright 2005

Continuando e fechando a sessão Keira Knghtley esse é um dos melhores longas de estréia da década, fresco, leve e muito bonito. Com boas atuações e uma câmera perspicaz, nova como a história pede; Joe Write trouxe frescor para a muito revisitada obra de Jane Austen. Pena que seu segundo longa seja muito mais um exercício de estilo, bem realizado diga-se de passagem, que uma continuação do tratamento suave que ele foi capaz de imprimir nesse primeiro. O Solista vale uma passagem também, apesar que parece que a sensação ao ver o primeiro Joe Wright não parece que irá voltar.

45- Domino (Domino - A caçadora de Recompensas) Tony Scott 2005

Sessão Keira Knightley começa agora; com roteiro de Richar Kelly de Donnie Darko, Domino é um sopro de vida e estética, coerente com o que acontece na tela nos filmes de ação. É uma pena que após toda a experimentação visual de Domino, Tony Scott tenha feito filmes de ação que drenavam dessa nova estética, como maneira de enganar o espectador, ao invés de adicionar ao que ele estava contando. Ele deve estar bem mais rico agora...

44- Wall-E Andrew Stanton 2008

Só pelos 40% do filme sem uma fala e o número de pessoas que foram ao cinema, Wall-e é um feito. É óbvio que ninguém faz isso impunemente, o valor artístico está também atrelado a cada uma das pessoas que foram ver o filme e também a uma brilhante direção (de som inclusive) que conseguiu criar e definir esse personagem sem ter que fazê-lo se expressar verbalmente.

43- Speed Racer Andy e Larry Wachowsky 2008

O blockbuster de 2008 que ninguém viu. Dos primeiros filmes que usa o fundo azul, não só para criar um cenário que não existe, mas também para extrair performances e movimentos de câmera que seriam impossíveis sem um trabalho completo de animação por computador. Talvez por isso ninguém o tenha visto, até hoje o que eu mais me lembro do filme são as cores e a velocidade que elas tinham. Primeira e real transcrição fiel da linguagem do mangá para a tela grande.  

42- Donnie Darko Richard Kelly 2001

É raro fazer um filme de realismo fantástico que não passe por algum nível de pastiche (o que Southland tales, seu próximo filme fará, mas de maneira primorosa) Donnie Darko é isso, é o intermediário entre a fantasia e a realidade, onde assim como para o personagem-título, sentimos a sensação de estarmos ficando longe demais do normal.

41- Gran Torino Clint Eastwood 2008

Clint Eastwood num dos melhores papéis de sua vida, dirigindo um grupo de não atores e fazendo um filme que é um petardo contra o preconceito. Preconceito tanto da audiência com relação ao protagonista quanto dentro dos personagens e da história. Adiciona-se a isso as magníficas três ultimas cenas, da morte, do testamento e do passeio de carro.

40- The Bourne Ultimatum (O Ultimato Bourne) Paul Greengrass 2007

Mais do que no vôo 93, Greengrass em Ultimato amarra a sua estética de ação com câmera na cara e juntamente com Matt Damon cria o filme de espião do século XXI: Insanamente rápido e difícil de entender, mas profundamente aditivo. Prêmio de melhor movimento de câmera pra câmera que segue o personagem Bourne quando ele pula de uma sacada à outra; pulando junto com ele. 

39- Rachel Getting Married (O Casamento de Rachel) Jonathan Demme 2008

O veterano de todos os tipos de produção, Jonathan Demme, analisa o relacionamento familiar problemático (como são todas as famílias) e sopra novo ar para o 'cinema independente americano' que parecia andar em direção ao precipício de cheio de Pequenas Misses Sunshines e Crashes. Além da superba atuação de Anne Hataway.

38- We Own the Night (Donos da Noite) James Gray 2007

Corrupção e redenção na noite Nova Iorquina. Matagal em chamas, pronto para receber os mal-feitores no inferno, Relações complicadas de família, relações complicadas dentro dos estados unidos, entre irmãos, pais, filhos e gerações. Definição da máfia russa como a principal força criminosa interna nos thrillers de crime americanos.  

37- The Darjeeling Limited (Viagem a Darjeeling) Wes Anderson 2007

A parte mais famosa da obra de Wes Anderson está toda presente após a virada do século, mas é esse mergulho europeu-indiano, profundamente ligado com uma concepção visual, na alma americana que se destaca mais. A mudança da família de protagonistas para os três irmãos, a insolitez da sua viagem que existe mais porque cada um deles tem de enfrentar os seus próprios preconceitos e o lirismo do momento de união.

36- There Will Be Blood (Sangue Negro) Paul Thomas Anderson 2007

As vezes eu não entendo como Daniel Day-Lewis fez Meu Pé Esquerdo. Assim como em Gangues de Nova York ele interpreta aqui o retrato do homem antigo, do homem forte que é capaz de tudo até ternura, mas que ao sentir a aproximação do novo, do moderno se fecha ao mundo. O título de Sangue Negro em inglês (traduzido livremente como Haverá derramamento de sangue) o posiciona como uma espécie de posfácio do século passado.

35- Talladega Nights - The Ballad of Ricky Bobby (Ricky Bobby: A Toda Velocidade) Adam Mackay 2006

Will Ferrell não perdoa ninguém. Não perdoa os europeus, não perdoa os americanos e na melhor cena do filme não perdoa o bebê Jesus. Assim como Falsa Loura, Talladega discute os efeitos da propagação de certos ideias nas partes mais profundas e escondidas da sociedade; fazendo você rir muito e com cenas de corrida maestralmente dirigidas e montadas.

34- Falsa Loura Carlos Reichembach 2007

O verdadeiro efeito da cultura de massa, longe da crítica vazia do academicismo; na pele de quem vive as distorções criadas por ela. Filme brasileiro com alma de filme brasileiro. Feito para quem já foi o público de um cinema nacional, e que ainda não se achou nos tempos de classe média e da 'retomada'.

33- Hotel Atlântico Suzana Amaral 2009 

Mostra de que não é necessário fragmentar para contar uma história não-linear. O começo é o fim que quando terminar mais uma vez começará de novo, ideia simples, realizada de maneira soberba e precisa; peguntando: O que nos define?  

32- Buongiorno Notte (Bom Dia Noite) Marco Bellocchio 2003

O "pau" na itália da década de 70 "comeu solto". E assim como no Brasil, ainda existem muitas roupas sujas a serem lavadas. Nesse filme, Bellocchio lava um monte, e tranca a mise-en-scene em um apartamento, onde assim como toda a Itália é 'forçada' a conviver junta; a revolucionária convive com o sequestrado, com o vizinho e com o roteiro do garoto conservador apaixonado por ela. Nada sai como deveria sair, exceto o filme que é fantástico

31- Monsters, Inc. (Monstos S.A.) Peter Docter e David Silverman 2001 

Fazer uma lista é complicado, nem sempre você fica satisfeito, e as vezes você faz sacrifícios em nome de valores artísticos e relega alguns gostos pessoais por medo de pessoais em excesso. A Pixar merce estar acima na lista, Monstros S.A. também. Monstros, porque e´uma história mágica, daquelas que adoramos quando crianças e procuramos arduamente quando nos tornamos adultos. A Pixar porque eles são, coletivamente, sem sombra de dúvidas, os melhores e mais confiáveis criadores de Hollywood; quiçá do mundo.

30- The Pursuit of Happyness (A Procura da Felicidade) Gabrielle Muccino 2006

O filme que confirma o título de maior astro de Holywood a Will Smith. Sensibilidade e força em uma história de superação contada de uma maneira que fez Frank Capra se levantar do túmulo e aplaudir. A muito tempo que não conseguiam contar uma história com tal teor emocional sem cair no piegas; e faz todo o sentido que seja um italiano a ter conseguido isso.

29- Shijie (O mundo) Jia Zhang Ke 2004

Talvez o único e grande descendente estético de Antonioni. Jia Zhang Ke praticamente explode o mundo com essa crônica da vida Chinesa e a sua tentativa de conter o mundo em um parque de diversões. A China (e a vida) da opulência e da pouca, ou nenhuma, recompensa.

28- Chuen jik sat sau (Profissionais do Crime/Full Time Killer) Johnnie To e Wai Ka-Fai 2001

Uma das provas que Hong Kong é muito mais que John Woo e Jakie Chan. Andy Lau maravilhoso na homenagem aos filmes de ação bons, maravilhosos e ruins. Discussão da força de uma parábola, de como o discurso e as história que tomam parte das nossas vidas parecem mais importante do que as mesmas. Tudo isso em meio a muito tiro e ação muito bem dirigia.

27- Mr. Brooks (Instinto Secreto) Bruce A. Evans 2007

Inverta tudo. Coloque um maníaco no controle, não o redima, mostre o quão cruel ele é, que as máscaras nada servem e que ele não tem preocupação com nada. Depois no final mostre como ele tem um fio de preocupação deturpada. A audiência não vai gostar muito, quase ninguém vai ver. Mas vá por mim, é um filmaço. O primeiro e verdadeiro anti herói do século XXI.  

26- Femme Fatale Brian De Palma 2002 

Sonhos são sutis. Sonhos parecem realidade, pesadelos mais ainda. Reviravoltas, segredos e sexualidade à flor da pele. A força acachapante da imagem e de um diretor que controla todas as suas repercussões. Pena que a maioria das pessoas fica ofendida quando alguém exerce tudo isso de uma só vez, provável que esse tipo de filme demore ainda um bom tempo para reaparecer.

25- Gruz 200 (Cargo 200) Aleksey Balabanov 2007

Rússia nua e crua. A semi-evolução do cinema sovético; ou o que seria o cinema soviético fosse ele capitalista. Hhistória bizarra que se passa no final da União Soviética em meio à inclemência da alma russa e do seu inverno. É a Rússia tentando se re-erguer em meio aos seus cadáveres, em meio às perversões escondidas no armário e uma geração de cegos que finge não ver o que aconteceu debaixo dos seus narizes.  

24- L'Ennemi Intime (Inimigo Intimo) Florent Emilio Siri 2007 

Talvez o realizador francês da nova safra mais interessante e menos comentado. Culpa da 'indústria do cinema de arte'; que muitas vezes aceita menos 'desvios' do que a indústria estabelecida. Talvez esse filme não tenha sido comentado, porque é uma pedrada em todos os intelectuais que olham para a frança e intendem nela o céu na terra. Só se ela existir para causar incêndios na África, aqui sim; um verdadeiro inferno.  

23- Elephant (Elefante) Gus Van Sant 2002

Vários olhares, várias tentativas de decifrar o indecifrável. Van Sant foge do fácil, foge do óbvio, não tenta justificar ou condenar os personagens, mas como quem olha um paquiderme de perto pela primeira vez, sente-se pequeno, vazio e com uma lente muito grande para entender o que acontece.  

22- Gangs of New York (Gangues de Nova York) Martin Scorcese 2002

Se fosse uma lista puramente de gosto pessoal, esse filme estaria muito acima. Não é um filme, mas uma epopeia sobre a criação do mundo moderno, ali estão, em um micro cosmo, todos os conflitos de relevância do século XX. Toda as vezes que começo a falar/escrever sobre esse filme, tenho que me forçar a parar, se não não para nunca.

21- Lost in Translation (Encontros e Desencontros) Sofia Coppola 2003

Tudo o que o 'cinema independente americano' quer ser; inteligente, espirituoso, denso e poético. Dinossauros que caminham por Tóquio, encontram uma garota perdida em busca de fantasmas e vida nova. Acabam levando ela e um velho senhor que abandonou a vida a viverem um conto de fadas fugidio. Além da ótima direção, a escalação dos atores para os personagens principais é perfeita.

20- Serras da Desordem Andrea Tonacci 2006

É engraçado como certos filmes são fadados a poucos públicos. Esse docu-drama que mistura encenações pelos próprios protagonistas da parte 'docu', é de difícil aceitação para todos, a re-encenação dos acontecidos pelos próprios protagonistas parece canhestra. Parece pois revela a existência da câmera e a influência que essa causa na própria realidade registrada. Filme Brasileiro mais complexo dos últimos tempos.

19- The New World (O Novo Mundo) Terrence Malick 2006 

Não é Pochahontas, não é simples e não é fácil. É lindo de uma maneira que é difícil explicar e difícil reproduzir, acaba com o ideal de bom selvagem mas consegue ser idílico ao mesmo tempo. Pena que Malick faça um filme por década, pena que poucos tenham visto essa maravilha imagética no cinema.  

18- Mary (Maria) Abel Ferrara 2005

Quando a razão tenta explicar a fé, a fé verdadeira e séria deixa ela tentar. Assim como a fé sabe que razão não vive sem ela e vice-versa, Abel Ferrara sabe que para fazer um filme sobre esse assunto o melhor é não tentar explicar nada e nos deixar tentar 'digerir'.

17- The Village (A Vila) M. Night Shyamalan 2004

Como metáfora ou não dos Estados Unidos pós 11/9, o último grande filme da série inicial de Shyamalan é seu divisor de águas. Ame-o ou deixe-o. O mistério da história, sobrepões o lirismo e o humanismo que esse diretor impõe aos seus personagens e à metáfora que infelizmente foi dragada e relegada a unicidade de interpretação dentro de um espectro político específico, que em um primeiro momento reduziu a capacidade de interpretação das pessoas frente ao filme.

16- Bug (Possuídos) William Friedkin 2006

Conciso, amarrado, esquizofrênico, apertado. A paranóia do mundo reduzida a um casal, perdido em meio à essência da ‘deep America’. Desde o plano incial, à localização do quarto e ao final do filme; Friedkin demonstra domínio total da linguagem. É um prazer vê-lo Friedkin em tão boa forma.

15- Coeurs (Medos Privados em Lugares Públicos) Alain Resnais 2006 

Resnais volta com um filme ‘pequeno’ mas de grande poesia. A análise dos interlaçamentos e ligamentos entre pessoas diferentes no começo do inverno (real e de suas vidas) resulta num ótimo filme do grande veterano do cinema atual.

14- The Hurt Locker (Guerra ao Terror) Katheryn Bigelow 2008

Katheryn Bigelow faz o retrato mais pungente da guerra no novo milênio. Dos seus porquês apolíticos, de quem faz parte dela sem cair em discurso contra ou a favor. Faz tempo que alguém desenvolve tanta coragem de analisar uma situação atual sem um julgamento à priori. Poético e brutal.

13- Salinui Chueok (Memórias de um Assassino) Bong Joo-ho 2003

Eu queira colocar Host (O Hospedeiro) aqui, até coloquei, mas a força do segundo filme do mesmo diretor, me parece muito maior que o sucesso internacional do seu próximo filme. Talvez pelo fato de ser uma história/não história verídica e a capacidade que o filme tem de passar a letargia do interior, a sensação de mesmice na curva da modernidade, aonde a nossa capacidade de estabelecer e atribuir sentido pouco a pouco se esvai.

12- I’m Not There (Não Estou Lá) Todd Haynes

Todd Haynes cria uma colcha de retalhos que não tenta recriar a biografia de um mito, mas, sim mitificar a biografia de uma pessoa. Da baleia, às referencias à Butcassidy e Cate Blanchet perfeita como o Bob Dylan da contra cultura; ele faz jus ao mestre Dylan e faz um resgate do significado de Buñuel e Jodorowsky para o cinema americano contemporâneo.

11- Munich (Munique) Steven Spielberg 2005

Poderia praticamente dizer o mesmo que disse pro filme acima para Munich de Steven Spielberg, que ‘jogou no lixo’ o exagero de sentimentalismo de Lista de Schindler e faz um dos melhores filmes sobre vingança . Isso porque os vingadores não são nada diferentes dos alvos da vingança. O filme também exerce no espectador o mesmo sentimento de perda no mundo que os personagens sentem, ao tentar exercer uma vingança, parece ser contra ninguém, contra o inevitável.

10- Children Of Man (Filhos da Esperança)Alfonso Cuarón 2006

Futuro distópico, sem discussão exagerada, sem porquês demais. Nesse filme de Cuarón; o porque é menos importante que o fato, possuímos esperança, porque possuímos esperança. Recheado de planos de sequência complicadíssimos e com belíssima atuação dos atores principais. Um primor de direção e roteiro; enfim, D C (du caralho)!

9- Bamboozled (A Hora do Show) Spike Lee 2000

Abrindo a década, um misto de digital com pelicula 16mm, essa sátira ao preconceito racial americano, ressoa na eleição de Barak Obama, na reação exacerbada dos americanos e do mundo ao fato de ele ter descendência negra, e do excesso que se espera dele, em parte, por possuí-la. A relação entre a sociedade de consumo e a cultura sendo entremeada por meios de captação diferentes termina o motivo pelo qual ele está entre os dez melhores.

8- Zwartboek (A Espiã) Paul Verhoeven 2006

Verhoeven de volta às origens, tratando da culpa Holandesa, da cicatriz mercantilista que eles (e cada vez mais todos nós) carregam. Dialogando com a invasão, a sobrevivência e as reais necessidades do ser humano. Mostrando como o controle Orwelliano não está tão longe de nós, e que a idéia de que o povo é quem deve fazer todas as escolhas é uma falácia, ao mesmo tempo mostrando as mazelas do totalitarismo. Escroto e, como sempre, verdadeiro; para onde vamos?

7- Redacted Brian De Palma 2008

Há algum tempo Brian de Palma discute o anti-cinema, a anti-história. Aqui ele mistura de tudo, desde documentários franceses com estética completa e rebuscada, câmeras de segurança, filmes 'caseiros' e vídeos de propaganda ideológica do Youtube. Criando um mosaico do mundo pós início da revolução digital/da informação, onde ainda existem muitos territórios inexplorados; principalmente a alma humana.  

6- Sen to Chihiro no Kamikakushi(Viagem de Chihiro) Hayao Myasaki 2001

Myazaki já era conhecido fora do Japão, mas não por todo mundo. Depois desse filme, é difícil o esquece ou perdê-lo de vista. Ele costura uma mistura de Cinderela ao contrário com o Fantasia. Um filme profundamente oriental e ainda assim completamente universal. É o filme de onde veem algumas das imagens mais bonitas e interessantes desse novo século.

5- Mystic River (Sobre Meninos e Lobos) Clint Eastwood 2003

A culpa e o perdão sem passar pela redenção, a suspeita e a ação. História de complexidade e profundida psicológicas que vão além do murder-mistery que inicialmente é retratado. Além de ser uma pungente crítica ao nosso sistema social, sem aparentemente falar nada sobre ele. O filme que talvez possua a melhor atuação de um grupo de atores da década.

4- The Aviator (O Aviador) Martin Scorcese 2004

A história do cinema contada em imagens, sem introduções ou explicações de que esse é um dos temas centrais do filme. Prova concreta de que Leonardo DiCaprio é um dos melhores atores vivos, pessoalmente prefiro Gangues, mas Aviador me parece mais importante, criou/cria maior repercursão. Ele é em si, um filme que lida com a congurência de mídia, com a relação que estabelecemos com as 'celebridades' (os substitutos dos deuses e santos, capazes de esmagar aviões com um soco). Agora, quem é mais esquizofrênico? Howard Hughes ou você que não sentiu nojo das ervilhas azuis?

3- Zodiac (Zodíaco) David Fincher 2007 

A noite entra no cinema. Enquanto em Miami Vice o digital tem o seu debut de potencial total criativo, Zodíaco aprofunda a possibilidade de realidade trazendo pela primeira vez uma noite que parece palpável. É 1970, mas nós estamos lá; caçando o criminoso junto com Jake Gylenhaal, vendo como essa caça envolve menos excitamento e mais dúvidas e emoções conflitantes.

2- Avatar James Cameron 2009

Avatar não é um filme, é um evento. Ainda não estreou, mas já compõem a lista. Ultra produção, tecnologias novas feitas especialmente para o filme e a volta do diretor que na década passada criou o maior número de momentos citados por outras mídias.” Isso é o que eu escrevi antes de ver o filme, pois é, demorei bastante pra fazer essa lista com comentários... A sensação que tenho é de estar em um momento histórico do cinema parecido com a época de “O Vento Levou”. E Avatar, queira ou não queira começou um movimento que ainda não consigo entender; seja ele de um canto do cisne do cinema, seja ele de um ciclo de renascimento.

1- Miami Vice Michael Mann 2006  

A relação entre uma série televisiva da década de 80, o uso de técnicas digitais a serviço da história, e de maneiras não vistas até então. Encabeça lista porque é dele, que virão as possibilidades de novas representação, o filme de Michael Mann é o arcabouço de onde o cinema digital irá aprender os seus truques, quase como que o Cidadão Kane de uma nova época.

 
 
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