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Há muito tempo eu penso sobre a relação entre a Vítima e seu Algoz. Imagino que existam pensadores de estirpe que já tenham explorado bastante este tema. Vou tomar a liberdade de também tratar sobre o assunto e não ficar me remoendo pensando que precisaria citá-los e não os conheço, ou não me lembro dos seus nomes.
Duas histórias do mundo da ficção imediatamente me vem à cabeça: O livro "A morte e a donzela", do Ariel Dorfmann, ( que virou filme depois, com a Sigourney Weaver e o Ben Kingsley) e o filme "O porteiro da noite". Em "A morte e a donzela" há uma situação de inversão de papéis: Uma mulher que passou por torturas durante o período da ditadura reencontra seu torturador, o aprisiona e faz com que ele passe por todo o sofrimento que ela tinha passado.
Já em "O porteiro da noite" a situação é um pouco diferente. Um ex-soldado nazista reencontra uma ex-prisioneira de um campo de concentração após a guerra acabar. O que acontece é uma estranha atração que faz com que eles se tornem amantes, numa relação "sadomasoquista", por assim dizer.
Curiosamente nas duas situações existe algum tipo de prazer, a diferença é que no primeiro caso o prazer não é compartilhado. A mulher torturada (e agora torturadora) sente prazer ao extravasar sua Vingança. No segundo caso os dois dão continuidade à complexa relação anteriormente estabelecida, mas agora com o consentimento das duas partes. Os papéis continuam só que em outra situação.
Na verdade, na primeira situação os dois também sentiram prazer, mas em momentos diferentes. O torturador dificilmente sentiu desprazer ao torturar a mulher, mas ela não compartilhava deste prazer naquele momento. Ela vai sentir prazer depois, quando ela ocupa o papel dele, invertendo a situação.
Nunca acreditei em papéis fixos e cristalizados numa relação (do ponto de vista da culpa). Da mesma maneira que é conveniente para o Algoz se relacionar desta maneira, a Vítima também se compraz e extrai prazer de sua posição.
Quem sofre recebe atenção, desde pequenos aprendemos isto. Quando éramos crianças e ficávamos doentes todo mundo nos tratava melhor. Vinham trazer comidinhas e doces na cama, a professora entendia que não tínhamos feito a lição de casa. Cativamos pedindo piedade. Muito cristã, aliás, esta estratégia.
Do outro lado, dominar a situação de maneira unilateral também é ótimo. A bola é minha, portanto eu vou jogar, e a hora em que estiver cansado do jogo, eu determino que o jogo acabou. Quanto mais brinquedos eu tiver, mais chances de estar em situação dominante nas relações que estabeleço.
De qualquer maneira, há um jogo nestas situações, que pode ser jogado de vários jeitos, trazendo prazer e desprazer misturados em momentos distintos. Há inclusive espaços diferentes para que eles se manifestem, o privado e o público.
Eu, particularmente prefiro não jogar estes jogos. Mas somos convidados a todo o momento a entrar neles em nossas relações.
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