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"Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo. O africano tem uma maldição. Todo lugar que tem africano está fodido".
George Samuel Antoine, Cônsul Geral do Haiti em São Paulo, na Folha de São Paulo de 17/01/2010
Você acredita em Destino, em Livre-Arbítrio ou no Acaso?
Os gregos acreditavam que não conseguimos fugir de nosso Destino, qualquer que seja ele. A essência da Tragédia Grega é o herói tentar, com todas as suas forças, fugir de seu Destino e ter de se confrontar com ele, apesar de seus esforços. Édipo é a própria encarnação desta questão, ao fugir de seu destino justamente para ir de encontro a ele.
Hoje, o mundo neoliberal cristão acredita piamente no Livre-Arbítrio, que nos permitiria tomar decisões tanto para nos tornarmos financeiramente bem-sucedidos quanto para não desviarmos dos caminhos de Deus, caindo nas tentações do Diabo (que por sinal anda sumido da Igreja Católica, daí o reaparecimento dele nas Igrejas Evangélicas:Pecisamos do Diabo, do Outro, para que a culpa absoluta não caia em nós, mas sim na Tentação. Sei que é ambíguo e paradoxal, mas é humano).
Tive o desprazer de conversar com uma pessoa sobre o Haiti esta semana. Segundo ela (e mais alguns que estão pipocando na mídia agora), a energia negativa trazida pelo Vodu praticado no Haitiacabou gerando este terremoto e a conseqüente tragédia de desolação e morte.
É uma lei da ação e reação, muito ao estilo de "O Segredo", que propõe a onipotência do Livre-Arbítrio: Se você realmente acreditar, o Destino se dobrará às suas vontades.
Segundo os seguidores do Livre-Arbítrio Radical (o pessoal que acredita em livros como O Segredo), a energia se materializará em alguma forma caso sejamos capazes de orientá-la, através do pensamento e foco. Manipularíamos nosso Destino, para o bem ou para o mal.
No caso dos haitianos, com suas práticas espirituais, a materialização teria sido a razão pela qual o terremoto matou aquele mundaréu de gente, rica, pobre,jovem, espiritualizada ou não. A "uruca" do Vodu seria tão poderosa que tudo veio abaixo.
E o Acaso? Raras pessoas acreditam realmente no Acaso. Nossa constituição mental praticamente impede que realmente acreditemos no Acaso. Repare que os filósofos que trataram do Acaso geralmente são os mais "baixo-astrais" e deprimidos da constelação filosófica. É muito difícil aceitar o Acaso. O nosso protagonismo simplesmente desaparece se aceitarmos que não há conexão de causa e efeito em nosso atos e nos fatos.
O que me parece mesmo é que usamos um monte de desculpas para irradiarmos nosso preconceito. Haitianos são pobres, negros, de uma cultura (afro) que muitos consideram "primitiva" (como se existissem culturas mais ou menos refinadas), num país arrasado politicamente e numa situação de miséria.
Da mesma maneira que preferimos não olhar diretamente nos olhos dos mendigos quando andamos pela rua, preferiríamos não ter de ficar pensando nesta tragédia, pois ela além de nos incomodar com sua brutalidade e miséria, também nos faz questionar nosso Livre-Arbítrio, pois um negócio destes poderia acontecer com a gente. Mesmo que estejamos mentalizando uma belíssima casa de praia aplicando as instruções de "O Segredo"e achando que somos onipotentes perante o Acaso.
"Em nome da religião, controem-se piras. Em nome das ideologias, pessoas são toturadas e mortas. Em nome da justiça, são injustiçadas. Em nome do amor a um país ou uma raça, outros países e raças são desprezados, discriminados ou massacrados. Em nome da igualdade e da fraternidade, praticam-se a perseguição e o ódio. Não há nada em comum entre os meios e os fins. Os meios vão muito mais longe que os fins. Na verdade, religião e ideologia são apenas álibis para esses meios".
Eugéne Ionesco
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