Home arrow Magoo arrow 1052 Claro Fail, um conto de terror moderno 29 de julho de 2010
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1052 Claro Fail, um conto de terror moderno PDF Imprimir E-mail
Por Magoo   
metamorfose_clarofail“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso inseto”. É assim que Kafka inicia sua mais famosa história, verdadeira obra-prima do terror psicológico, o surreal conto “A Metamorfose”. Quando decidi adquirir um modem 3G da Claro, ainda não fazia idéia que, de um consumidor pagador de seus compromissos, seria repentinamente tratado como um inseto desprezível... E esta não é uma história de ficção, nem um conto, a não ser, claro, se considerarmos o conto do vigário – expressão popular empregada para nomear, claro, um golpe de esperteza.

 

Um envelope da Claro chega em casa. De duas uma: promoção de algo  que não preciso mas que me é oferecido como se fosse a última maravilha do mundo ou, claro, a conta do mês. Qual foi minha surpresa ao me deparar não com uma simples fatura, mas com uma, abre aspas, “Multa por Alteração/Cancelamento”, fecha aspas. As maiúsculas não são minhas, claro. O valor: R$ 397,80.

Imediatamente, me assombro, primeiro, com a palavra multa e, depois, com o valor estratosférico, quase um salário mínimo. Depois que recupero minha respiração e ainda com os dedos trêmulos, ligo para o serviço de atendimento, 1052, que, claro, não atende antes que eu passe pela voz gravada e intermináveis minutos de musiquinha. Primeira tentativa bem-sucedida, isto é, consigo superar a voz gravada e falo com uma voz de verdade, ou assim imagino. A voz era de alguém que trabalhava no setor de Contas. Conto a ela minha história...

Era uma vez um heavy user de Internet – eu mesmo – que havia acabado de se tornar independente de outra empresa de telefonia cujo serviço de modem, digamos, que não era assim tão speedy, e ainda comemorava a recém-liberdade, quando decidiu: Vou adquirir o modem da Claro.
Primeiro passo: procurar o telefone no Google Search. Segundo passo: ligari, passar todas as informações solicitadas e ouvir – este, um passo inesperado - que, no máximo, em cinco dias, alguém iria ligar de volta confirmando a contratação do serviço.

Ainda empolgado com a nova aquisição, decidi me dar outro presente: um Iphone, sonho de consumo antigo. Alguns amigos alertaram: olha, vai sair o novo Iphone em menos de um mês, espera mais um tempo que vale a pena.

Claro que nem liguei para os conselhos e corri para uma loja da Claro. Antes,  no entanto, pesquisei no site da empresa o aparelho que eu queria e o plano de serviços que me interessava.

Cheguei à loja absolutamente decidido e, depois de “apenas “2 horas e 15 minutos, sai com meu Iphone já funcionando...

Pausa. O que aconteceu nessas mais de 2 horas é o que importa para nossa história.

Em certo momento de meu diálogo com o vendedor – com tanto tempo conversando, há de se convir que a intimidade se torna natural -, comentei que seria fantástico se, além do celular, eu também já pudesse sair com meu novo modem. Expliquei que, no dia anterior, eu havia ligado para a Claro – e aí ele me interrompeu corrigindo que a Claro que eu havia ligado era uma outra Claro, claro. Era a Claro que vendia modens e não a Claro que vendia celulares. Claro! 

Enfim, contei que já havia ligado para a Claro da Internet solicitando o modem e perguntei se não seria possível que a Claro dos celulares efetivasse essa compra. O rapaz, muito educado, explicou que, de fato, se tratavam de duas Claros diferentes, claro, mas que eu poderia ligar para o 1052 e solicitar o cancelamento, para  que ele fizesse o pedido pela loja.

Achei a idéia fantástica e, na frente do vendedor,  peguei meu celular antigo – o Iphone ainda não estava em operação – e, depois de 15 minutos ouvindo aquela horrorosa musiquinha – deixei em viva-voz, só de sacanagem, para que todo mundo da loja, incluindo os clientes, testemunhasse meu martírio – levei um susto quando um atendente de carne e osso me atendeu.  Solicitei o cancelamento do pedido do dia anterior e, após uns 10 minutos, finalmente consegui finalizar a ligação – como esse pessoal gosta de nos manter ao telefone, né?

O atendente, não da Claro da Internet, claro, mas da Claro da loja, satisfeito, finalizou a venda do modem e, assim, pude sair da loja, feliz e saltitante, com meu novo Iphone – bem, o modelo já ficou obsoleto,  exatamente  como meus amigos me alertaram – e um novo modem.

E aí, lapso de tempo, chegamos ao misterioso envelope que trazia a fatídica “Multa por Alteração/Cancelamento”. As aspas são minhas.

Explico tudo isso para a atendente e, confesso, já estou um pouco nervoso, pois ela se mostra surpresa com meu relato – como se ela duvidasse de história tão absurda. Tento repetir a mesma história falando pausadamente,  porém usando menos palavras,  quando, sou repentinamente interrompido por, abre aspas, “eu já anotei a solicitação do senhor e estaremos entrando lhe retornando  tão logo tenhamos uma resposta”, fecha aspas... As reticências não são minhas. É que, depois desta fala, que não funcionaria muito bem no encerramento de um filme, antes do “The End”, a ligação ficou muda. Esperei por mais alguns momentos, pensando tratar-se daquele recurso que os operadores de Telemarketing usam quando não querem que ouçamos os xingamentos que eles nos dirigem ou a outras pessoas que trabalham com eles ou, até mesmo, à empresa para quem eles trabalham e, sendo uma operadora de telefonia, potencialmente, acaba muitas vezes colocando a vida deles em risco. Na verdade, a espera foi longa e... nada. Ela havia desligado o telefone ou a ligação apresentou um problema e foi interrompida. Qualquer que tenha sido o motivo, a culpa não foi minha, claro.

Com os nervos já numa oitava acima, liguei novamente.  1052. Um monte de opções para você escolher em qual labirinto quer entrar.  Mais musiquinha e... pronto: setor de Reclamações. Mais uma moça de voz robótica lendo um script  - pasmem! - sem gerúndios – há de se convir que também há avanços. Repito toda a história, só que desta vez já parto para a versão de ritmo pausado e concisa, pois não quero reviver o drama da primeira ligação. A nova atendente parece entender tudo de primeira – eba! -, só que explica que não poderia estar resolvendo o meu problema,  mas que era para eu ficar tranqüilo,  pois estaria transferindo minha ligação para o setor de Cobrança – justiça seja feita, os gerúndios são meus.

Ela se despede, e aí me sinto em como o Humphrey Bogart se despedindo no aeroporto da Ingrid Bergman em “Casablanca”, já pressentindo algum desfecho trágico. Batata! A ligação cai, de novo.

Bufo, esperneio, xingo a mãe solteira da última atendente que me abandonou ao relento. Por um instante, penso alguém sussurrar emmeu ouvido a palavra complô. Será que deliro?

Nova ligação, claro, sou brasileiro e não desisto nunca. 1052. Caio de novo na URA, entro no labirinto e, finalmente, chego ao setor de Internet.

Desta vez, é um rapaz que me atende. Embora não tenha qualquer preconceito contra as mulheres, interpreto isso como um bom sinal, apenas por se tratar de algo diferente. Agora vai, penso em voz alta. Conto novamente minha história e, desta vez, de maneira ainda mais sintética e didática, para que ela possa ser repetida. Ao término da segunda repetição, ensaio uma chamada oral, para ver se o rapaz entendeu. “Perfeitamente, senhor”. Alívio. Finalmente, o fim do calvário. Eu já estava de posse do número de protocolo – uma sequência de 13 números! - a ligação na casa dos 26 minutos – juro que é verdade, basta olhar minha  próxima conta telefônica -, quando ouço o que não queria. “Senhor, agora peço que o senhor aguarde nosso contato,  pois, no máximo em 5 dias úteis, iremos lhe dar uma resposta para  sua solicitação.”

Como assim “5 dias”? Eu quero resolver isso agora! “Infelizmente, senhor, eu não posso fazer nada.”

Ainda mais puto do que quando ensaiei um vodu com a atendente filha de mãe solteira, consegui identificar na fatura da multa, naquelas letras minúsculas, em corpo 5 ou 6, “Central de Atendimento Anatel – 133”. Pensei:  vingança!

Perguntei ao atendente se aquele protocolo – a sequência de 13 números! – que ele me passou era o que eu deveria informar a Anatel quando  fosse levar meu caso a ela. Ele, meio que surpreso com a pergunta, disse apenas que achava que sim, que deveria ser aquele número.  Pensei: como esse fdp não sabe se o número que ele me passou é o que eu devo informar para a Anatel quando for registrar minha reclamação?

Desliguei educadamente a ligação – lembro-me que a vingança é um prato que se come cru – e fui correndo ligar para a Anatel. 133. Em poucos segundos, sou atendido por uma voz não gravada. Inacreditável. Educada. Sinto-me nas nuvens. Conto minha história sem me preocupar em falar pausadamente,  percebo o interesse do outro lado da linha.

Estamos ali, entabulando um papo cordial, quando  a moça me pergunta se o prazo informado pela operadora já havia expirado. Explico que eu havia acabado de ligar para a operadora e que havia, claro, recebido a informação para aguardar 5 dias úteis. Nesse momento, a moça, ainda educadamente, disse que eu só poderia, claro, registrar minha reclamação na Anatel após o término do prazo dado pela operadora. Explicou ainda que se tratava de um acordo entre a Anatel e as operadoras. 

Nova pausa. Longa, grave, pausa de suspense.

De repente... batata! Eu finalmente, entendi tudo. Perfeitamente. Acordo com as operadoras. Tenho que esperar o prazo. Ela não podia fazer nada.

Já não restava qualquer dúvida! Eu havia sido vítima de uma pegadinha. 
Ai, grandissíssimo fdp! Se eu encontro esse Kafka na rua, ele não me escapa! Vou acabar com a raça dele, mas terá que ser uma morte dolorosa, que nem mesmo um gênio como ele pudesse conceber, algo como enterrá-lo vivo – ele, com os braços e pés amarrados, esquecido num caixão escuro com um celular pendurado em sua orelha e, claro, ligado no número 1052...


 
 
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