Quando entrar em vigor a lei que proíbe o cigarro em ambientes fechados, a primeira conseqüência será a de essa norma virar fumaça rapidinho. Vivemos no país do jeitinho, ora essa!Sancionada pelo governador José Serra, cujo nome pressupõe alguém que não compra cigarros nunca, essa lei começa a vigorar agora a partir de agosto. Pretende acabar, numa só tragada, com todos os “fumódromos internos” e baforá-los para outro lugar fazendo com que os fumantes espertalhões ou acatem a lei ou, então, descolem algum “escondódromo”. Os ambientes mais atingidos claro serão os bares, cujo ambiente etílico é tão pertinente à fumaça de um cigarro quanto a fumaça de uma varinha de incenso é para os oráculos.
Em restaurantes, como fumante que sou, preocupa-me muito mais o fato de não saber como vou pagar a conta do que saber se vou poder ou não fumar lá dentro. Aliás, nunca me acostumei com garçons recebendo-me com a velha pergunta: “fumante ou não fumante?” Sempre sonhei em entrar num bom restaurante, com fome de anteontem e o garçom me receber com a pergunta: “Pagante ou não pagante?”
Dentro de outros ambientes como empresas, lojas, cabines de aviões... há muito essa proibição já existia. Mas aqueles fumantes mais compulsivos sempre dão um jeitinho de ir ao “escondódromo” ou então, resignados, irem fumar lá fora. O último que fez isso num avião nunca mais voltou.
Na verdade, o problema mesmo vai ser em bares e restaurantes onde a vontade de fumar sempre atinge todos os limites, incluindo os do caradurismo:
___ Por favor, garçom, tem um isqueiro aí?
___ Tenho sim...
___ Então aproveita e me dá um cigarro também... já tá com a mão na massa mesmo...
Se essa lei que está chegando valer mesmo, embora eu seja meio cético quanto a isso, o jeito mesmo será parar de fumar. Ou então parar de freqüentar bares e restaurantes, o que eu duvido mais ainda. Freqüentar um bar ou um restaurante é outro tipo de vício. Não tão pernicioso quanto o vício do cigarro, claro, mas tão dispendioso quanto. Mesmo assim todos proprietários desses estabelecimentos estão temerosos de que seus clientes desapareçam e estão torcendo para que eles parem de fumar antes que eles parem de freqüentar suas casas. Bobagem! Quando baixaram a Lei Seca foi a mesma coisa. Houve todo aquele terrorismo inicial e os motoristas tinham medo até de comer um bombom de licor com medo do bafômetro. Agora... tudo como dantes no boteco do Abrantes.
O que o legislador deveria entender, ao escrever a lei, é que algumas coisas como bar, cigarro e bebida são tão inseparáveis como sempre foi a Santíssima Trindade ou como eram Reco-Reco, Bolão e Azeitona. No universo dessa trilogia já aconteceram arroubos da mais pura genialidade que, não fossem essa mágica combinação de cigarro com bebida, coisas como Garota de Ipanema, do Tom e do Vinicius, criada numa mesa do Bar Veloso em Ipanema; ou Pedro Pedreiro do Chico que, reza a lenda, teria escrito a letra no balcão do Bar Faculdade na esquina da Maria Antonia com a Dr. Vila Nova; e tantas outras que talvez não tivessem nascido. Mas isso é outra história...
Eu nunca consegui nem parar de fumar, nem parar de freqüentar bares. Parar de fumar pra mim, embora eu saiba seja necessário, sempre foi muito difícil! Anos atrás eu comecei a fumar cachimbo pra me afastar do cigarro. Hoje eu fumo regularmente os dois. Parar de freqüentar bares eu não vou conseguir mesmo. Talvez, parar de fumar... vamos ver!
Segunda-feira eu começo...
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