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   Eu demorei pra postar,
porque demorei pra escrever esse texto, que tá 'entalado' em mim faz
muito tempo... Demorei porque sei que ele vai deixar um número
razoável de pessoas bem p... da vida... Mas este blog é pra isso
mesmo. Tenho alguns amigos que são estrangeiros, e a visão deles de
como o Brasil funciona é um grande revelador, porque através tanto
dos seus vícios de olhar, quanto do insight de quem está de fora,
eles me ajudam a criar um misto de visão sobre o nosso país, melhor
que um deles sozinho.
E eles me fizeram ver
que no fundo no fundo, o intelectual brasileiro mais 'enxovalhado' do
último século estava certo: Gilberto Freyre. Ok, certo em partes,
certo na idéia de democracia racial tupiniquim. COMO ASSIM!?
O Brasil não é um
país essencialmente racista. Países onde um dos aspectos que
predominam na esfera social é a questão étnica formam guetos. O
Brasil não tem guetos, a terra do futebol tem periferias, periferias
onde moram mais negros, mulatos, indígenas, mamelucos e menos
brancos. Mas os brancos vivem lá sim. No Harlem clássico tanto os
negros ricos quanto os pobres vivam lá.
Um estrangeiro em
terra brasilis tem grande dificuldade em se adaptar ao nosso ambiente
pois ele não possui a capacidade que nos foi desenvolvida durante
grande parte dos anos da nossa criação; ele não sabe diferenciar
em pouco tempo a que classe uma pessoa, ou grupo de pessoas pertence.
Nós brasileiros rapidamente sabemos distinguir entre quem é e quem
não é da nossa classe, e isso é o que mais nos incomoda em
situações sociais; perceber que estamos longe 'dos nossos'.
É claro que esse fato
que 'percebi' não torna esse país isento do racismo. Ele existe,
mas na maioria das vezes está ligado a justamente essa relação de
classe, a maioria da população negra no Brasil é pobre, e a
maioria da população pobre é negra; mas aceitamos 'negros
esclarecidos' mais facilmente que os americanos (por exemplo) aceitam
o Obama, ou um Mexicano. Aqui aceitamos quem quer que seja, desde que
ele seja 'bem criado'.
No Brasil temos o mito
de Chica Da Silva, que como diz a música de Jorge Ben: “Jóias,
roupas exóticas/Das Índias, Lisboa e Paris/A negra era obrigada/A
ser recebida/Como uma grande senhora”. Só por causa das suas
jóias, a negra era obrigada a ser recebida como uma grande senhora,
o que importa aqui é a grana, a estatura que te carrega, o quão
próximo você está financeiramente de uma metrópole imaginária.
Seja ela Portugal, EUA ou o resto da Europa. O divertido mesmo é ser
identificado como um membro da elite que se sente “mais estrangeira
que brasileira”.
É duro reconhecer
isso, é duro pois isso passa por cima de uma série de preceitos que
justamente essas metrópoles nos jogaram em cima. Nos disseram que a
raça era importante, que em país que existiram escravos existe
racismo, disseram que nosso racismo estava ali, incipiente, brando.
Ele pode até ser mais refinado, mais difícil de ser detectado, e só
é assim, pois justamente não é ele que desempenha o principal
fator social no Brasil, mas sim a estatura das pessoas.
Quem nunca ouviu
alguém falar algo do tipo: Ele é negro, mas bem apessoado? Ora
bolas, o que importa na frase e na cabeça da pessoa não é que ele
é negro em si, mas sim que ele ultrapassa o esteriótipo do negro de
ser pobre; portanto é uma pessoa digna de convivência.
O racismo aqui está
atrelado a outras coisas, não é como nas nossas metrópoles
imaginárias, onde ele atrela coisas. Os judeus (antes da 2a guerra)
eram ruins porque eram judeus, os africanos são africanos e então
ruins; aqui os pobres são negros e por ser pobre o negro é mal
visto. Aqui nós escondemos os pobres atrás de Cingapuras, não
mandamos eles para o Harlem, ou Chinatown. O bairro da Liberdade hoje
em dia tem tanto ocidental quanto descendentes de orientais. Tem
menos negros, porque eles são pobres; não porque são negros.
Talvez com uma maior
aproximação e equalização da distribuição das etnias nas
classes agente possa dizer com orgulho; bater no peito porque somos
tão racistas como a metrópole. E não 'meros' classistas de
terceiro mundo...
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