Há dezenove anos, o Muro de Berlim era triturado a golpes de marreta. Dois anos depois, mais uma cortina caía, com o fim da União Soviética. Para muitos, os principais fatos que apontaram para a derrocada do Comunismo. Setenta e nove anos nos separam do Crash em Nova York. Semana passada, Wall Street temeu por uma reprise. O que estes fatos têm em comum?
Provavelmente a certeza de que não há um regime que garanta o avanço equilíbrado entre economia e sociedade. É bem provável que o livre mercado se aproxime mais de uma teórica perfeição nesse sentido, haja vista suas leis determinarem o sucesso ou o fracasso, dependendo da competência e do mérito.
Ocorre que a liberdade é por muitas vezes a mãe da perversidão, assim como a felicidade tem como mãe a ignorância. Se é difícil para os papas da economia entenderem o que está ocorrendo, que diremos nós? Fato é que tudo agora é mais rápido - até mesmo a ansiedade que passou a tomar conta de todos.
A pressa deixou de ser exceção para se tornar regra. O simples feito de ligar um computador chega a ser um martírio para alguns. Que progresso é este que tem tirado de nós a contemplação e o desfrute? Hoje descartamos tantas coisas que até mesmo as pessoas passaram a ser como pó na ventania.
Que todos estão à procura de algo, não há dúvida. É natural, é lei de vida e não há avanço sem movimento. Só que há uma histeria no ar. Assim como os Comunistas precisavam da força para manter a ordem, agora a ordem está precisando de uma força para voltar ao prumo. Se o Comunismo foi uma barca furada, pois sugeria a igualdade entre os desiguais, o Capitalismo permite uma corrida desenfreada pelo valor que as coisas dão as pessoas e não pelo valor que as pessoas dão às coisas.
A exigência do sucesso a qualquer preço e a facilidade com a qual tudo pode ser comprado (ou roubado) hoje em dia confundem as pessoas e traduzem a elas de maneira equivocada o que o sucesso representa. Todos sairiam ganhando se o assunto em pauta não fosse os modelos econômicos perfeitos, a luta partidária pelo poder, a justiça dos homens ou a idéia de uma religião mais próxima da verdade divina. Estamos esquecendo do básico: viver.
Sociedades e regimes perfeitos não existem e não faria sentido se acreditássemos nisso. Valores e princípios são tão importantes quanto o ar que respiramos, mas a vida nos distancia muitas vezes daquilo que acreditamos. Não, não há amargura nestas linhas, apenas a observação de algo que tem incomodado demais nos últimos tempos.
Já parou para perceber como tudo não passa de um esforço no vazio? A felicidade continua lá, nas coisas simples e lá vamos nós complicá-las. Entre passar um final de semana com tudo pago em Búzios ou ajudar idosos no Lar Santa Generosa, o que preferiria fazer? Pois bem. Todos os dias nos deparamos com situações semelhantes e dificilmente optamos pela segunda.
Então antes de reclamar da vida, de correr no trânsito e perder a paciência com os outros, olhe para você e pergunte, afinal, de que lado você está e o que pretende fazer para ajudar a sairmos dessa.
|