Home arrow Aurélio arrow PALAVREXPRESS... 29 de julho de 2010
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Por Aurélio   
Como profissional do texto, gosto de observar palavras e expressões e brincar com elas, descobrir suas origens, numa espécie de exercício de criatividade e raciocínio. Por exemplo, aquela antiga expressão usada pelos amigos do ócio: Quero que o mundo acabe em barrancos para eu morrer encostado! Fantástica essa frase pra gente brincar com ela.


Como profissional do texto, gosto de observar palavras e expressões e brincar com elas, descobrir suas origens, numa espécie de exercício de criatividade e raciocínio. Por exemplo, aquela antiga expressão usada pelos amigos do ócio: Quero que o mundo acabe em barrancos para eu morrer encostado! Fantástica essa frase pra gente brincar com ela.

Veja: Quero que o mundo acabe em barracos... a ser usada pelos sem-tetos; ou Quero que o mundo acabe em Barretos... usada por aqueles que detestam rodeios e assim por diante. Meu pai, o velho Gabriel, sempre foi um mestre em lembrar dessas frases! Ele sempre vem com esta: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura! Essa é legal também... eu deixaria ela assim: Anágua mole em perna dura, tanto esfrega até que fura! Meio fraquinha, reconheço... até mesmo essa conotação pornográfica não pegou bem. Além do que nem todo mundo sabe o que é uma anágua! Alguém sabe o que é uma anágua? Parece nome de um molusco do mar. Mas não é! Anágua significa... saia de baixo! Não! Por favor, não saia... fique onde está! Eu me referia à saia, uma roupa curta usada debaixo do vestido, uma espécie de combinação... feita entre as mocinhas de antigamente e seus afoitos namorados. Elas deixavam claro para esses rapazes que eles teriam algum trabalho até atingir o objetivo final... que vinha depois da combinação e nunca antes do que se havia combinado. Mas voltando à vaca fria...  ei! Alguém aí sabe o que quer dizer isso? Voltar à vaca fria?

A princípio eu achava que se tratava da história daqueles dois touros que, no pasto, eram cheios de lábia e conquistavam tudo quanto era vaca. Nenhuma resistia à conversa daqueles dois! Apenas uma, holandesa, era tão carnuda e gostosa quanto indiferente... não dava colher de chá para aqueles touros, nem se deixava seduzir. Mas eles sempre tentavam com aquela conversa pra boi dormir... (essa é boa também!) Depois de passar a lábia em todas as vacas do pasto, um dos touros sempre dizia: Bem... vamos voltar à vaca fria!
Eu sempre contei essa história com ares de entendor... até que fui desmascarado pelo livro da editora Campus/Elsevier A casa da Mãe Joana escrito pelo professor e ator Reinaldo Pimenta que me deu a seguinte explicação: no século XV, na França, fez sucesso uma peça de teatro que contava a história de um carinha que tinha roubado uns carneiros e estava sendo julgado. O advogado do ladrão, durante o julgamento, ficou enrolando o jurado e o juiz com um palavrório sem fim que não não tinha nada que ver com o caso. Já com o saco cheio, o juiz interrompeu o advogado dizendo: Por favor excelência, voltemos aos carneiros! Essa expressão ficou muito popular na França que acabou significando... Vamos voltar ao assunto! Mas quando chegou em Portugal, o que era carneiro virou vaca... porque os portugueses costumavam comer carne de vaca antes da refeição principal e a carne era fria! Pronto! Assim nasceu a expressão Voltar à vaca fria! Sei não... achei a minha explicação mais legalzinha...

Por falar em criar expressões, tenho um amigo que não vejo há muito tempo... Odair Batista, locutor veterano de rádio, dublador, uma voz excelente... ele foi um dos criadores do famoso programa humorístico Rádio Camanducaia, que a gente ouvia, se me lembro, na rádio Jovem Pan. Meu amigo Chico Rodrigues do Estúdio Bandeirantes me contou certa vez que o Odair, enquanto esperava por uma gravação qualquer, ficava sentado na recepção do Bandeirantes onde, na parede, havia um grande mapa do Estado de São Paulo. O Odair ficava lendo os nomes das cidades e criando nomes de emissoras. Então saía coisas do tipo... Rádio Sanduíche de Bauru ou então Rádio Petit di Poá... realmente muito engraçado... dá até pra fazer algumas: Rádio Modess de Varginha... Rádio Pêssego de Caldas... grande Odair Batista!

Ainda sobre nomes de cidades, eu me lembro do meu pai dizer que tinha conhecido uma moça de Dois Córregos que namorava um carinha de Ponta Grossa... coisas do velho Gabriel!
Esse assunto é legal e, oportunamente, prometo voltar à vaca fria...

 
 
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