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Minha aventura americana está chegando ao fim...
Não está terminando do jeito que seria bom terminar, ou seja, com o meu pé-de-meia super-recheado de dólares e com o inglês fluente e rápido. Não! Infelizmente o pé-de-meia que eu usei pra guardar dinheiro devia estar furado e agora, em vez de grana, está cheio de erros, acertos e inconseqüências. Não consegui fluência em inglês e qualquer adolescente jamaicano me dá de dez a zero. Claro que não estou na estaca zero como muita gente aqui... que está há anos nos EUA e ainda tem dificuldade pra traduzir “Thanks”! Como o Teixeira (foto) da Cunha’s Bakery, por exemplo, que depois de 30 anos só aprendeu duas palavras: Yeah! e Bless you! que ele fala quando alguém espirra. Sempre que falam em inglês para o velho Teixeira ele não quer nem saber o que estão falando... sempre concorda com um sonoro Yeah! Se perguntarem em inglês se ele é viado, não vai dar outra... ele vai responder: Yeah!
Falar eu falo... não rápido como o Martin Scorsese e também nem devagar como o Rock Balboa. Quando eu falo, também não tenho aquele sotacão carregado do Roberto Benini ou do Pedro Almodóvar que, cá pra nós, faz Shakespeare tremer na cova! Aliás, meu problema com o inglês não é tanto falar e sim entender quando falam comigo... e a coisa complica mais ainda quando sou o primeiro a dizer alguma coisa! Porque eu consigo articular bem períodos completos e, juro, quase sem acento. Aí o interlocutor americano acha que eu nasci em Kansas City e fala comigo de igual pra igual! Danou-se! Olha só o mico, dentre tantos, que eu paguei: um domingão estava eu num Flea Market em Taunton com um amigo e havia lá um vendedor de hot-dog. Encostamos no carrinho do homem, cara de libanês, e eu pedi dois hot-dogs pra nós! Falei naturalmente pedindo, até, pra ele acrescentar cebola e pimentão picados (chopped onion and pepper) nos sanduíches. Bem... tá lá o homem fazendo os hot-dogs quando ele vira pra mim e pergunta rápido feito uma metranca:
___ Doyouprefercokeorpepsi?
___ Yes! ___ respondi prontamente ___ Onion and pepper!
Meu amigo Chico, mineirinho da roça que não fala um catso de inglês mas, valha-me Deus sei lá como, consegue entender olhou pra mim meio bestificado e o homem também parou os sanduíches e me olhou... e ficaram os dois me olhando com cara de peido...
___ Orelho... ___ disse-me o Chico ___ ... u hômi qué sabê si nóis qué coca ou pepsi...
Meu... perdi a fome! Uma pergunta tão simples... acaba virando uma conversa de loucos! Mas pra falar a verdade... vim para cá sem muito interesse ou determinação pra aprender inglês. Não estou dando uma de “A raposa e as uvas”... mas nunca achei que saber inglês fosse determinante na minha vida profissional. Acho que seria bom, mas não determinante e nunca fui atrás. Sempre sonhei em ser escritor, um profissional do texto, e não intérprete na ONU, executivo de multinacional ou hostness da rede Hilton. Depois outra: a gente chega numa idade em que o HD já está repleto de língua portuguesa e isso dificulta e desestimula o aprendizado. Por isso que a molecada aprende rapidinho... tem muito espaço ainda no HD e o processo de assimilação é bem mais fácil! Mas deixa pra lá... para quem está aqui em Fall River saber perguntar onde é o banheiro e que dia sai o pagamento já está muito bom!
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Mas como eu dizia... aqui estou eu quase que na marca do pênalti pra voltar ao Brasil. As malas já estão prontas! Já despachei duas caixas de coisas minhas para o Brasil e estou mandando mais duas... repletas de coisas que contam histórias! Quem também está despachando para o Brasil, não caixas e sim imigrantes, é o Tio Sam que, de fato, não quer brasileiros ilegais como sobrinhos recusando-se a legalizá-los. Ele complicou de tal modo a nossa vida aqui que, diariamente, os aviões saem lotados e sei lá se vou conseguir passagem de volta facilmente no final de janeiro.
Bom, primeiro tenho de vender o carro pra fazer dinheiro e aí bati de frente com outro problema. Ninguém quer pagar o que ele vale. À vista ele custaria 6 mil dólares. Fizemos então um financiamento, 80 dólares por semana durante 28 meses... saiu-me por 9 mil dólares. Acho justo vendê-lo por 4 mil dólares! Magina! Os dealers oferecem 1.000 dólares, 1.200... teve um lá na Rota 6, uma agência de americanos, que me ofereceu 800 dólares pelo carro. Nem respondi. Fui até um açoriano que trabalhava lá e pedi ao gajo em bom português que não estranhasse se alguns enfermeiros entrassem correndo na agência. Provavelmente era pra buscar o amigo dele que me ofereceu 800 dólares pelo carro que, certamente, havia fugido de algum manicômio. Pô... o carro é um Sportage da Kia, 2003, bonitinho, coisa e tal. Gozado que no Brasil esse carro, desse ano, mesmo modelo, você não compra por menos de 35 mil reais, ou seja, quase 20 mil dólares. O De Gaule tinha razão. Não somos um país sério! Pelo menos no quis diz respeito no mercado automóveis...
Por falar em seriedade... a polícia daqui anda cada vez mais arisca! Antes a gente não se preocupava muito, mas agora temos de ficar espertos. Algumas semanas atrás fui parado. A troco de nada porque não tinha feito nada de errado. O Guardabelo me parou porque não tinha nada melhor pra fazer naquela hora. Como sempre, pediu os documentos do carro e a minha Driver’s Licence e, claro, apresentei a carteira do Brasil. Os papeís do carro estava em ordem mas a carteira do Brasil, aqui, tem o valor de um cartão de visita de um vendedor de frigobar visitando o Polo Norte. Resultado: meu nome no sistema e uma advertência por escrito. Coisa séria! Se for pego novamente dirigindo sem Driver’s Licence de Massachusetts... três meses de cadeia fora as ameaças de deportação... acho até que essa idéia não seria tão ruim assim! Já pensou poder voltar ao Brasil com tudo pago?
Não seria uma má idéia chutar o saco do próximo policial que me parar...
Aurélio de Oliveira
Fall River – Janeiro de 2008
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