Minha avó já dizia que a maioria dos brasileiros só vai ao dentista depois de uma bruta dor de dente! Na verdade aquela esperta velhinha, ainda que intuitivamente, referia-se ao prosaísmo de uma simples cárie para criar uma incômoda metáfora sobre como as autoridades brasileiras valorizam, respeitam e protegem nossos bens culturais... principalmente os que estão nos museus.
A notícia de que algumas empresas fizeram uma polpuda “vaquinha” para modernizar o sistema de segurança do MASP confirma essa metáfora da cárie. Pois... para que essa iniciativa privada acontecesse, foi preciso que alguns ladrões armados de macaco hidráulico e pé-de-cabra entrassem no maior museu da América Latina como entrariam, facilmente, na padaria da esquina. Em exatos 3 minutos, eles roubaram um Picasso, avaliado em 50 milhões de dólares; e um Portinari, de 5 milhões de dólares; com a facilidade de quem rouba uma peça de mozarela ou um vidro de azeitonas.
As notícias dão conta de que as câmeras internas registraram o momento do roubo, mas como não têm dispositivo infra-vermelho as imagens são de péssima qualidade e só há o registro de vultos andando pra lá e pra cá!
Se esse roubo foi encomendado ou não, pouco se sabe! O que se sabe é que, pela rapidez, foi realizado por profissionais nesse tipo de crime e os caras sabiam de antemão quais obras levariam, porque elas ficavam em salas separadas. Agora... se foi algum milionário excêntrico que encomendou o roubo, então além de excêntrico é um idiota. Qual a vantagem em ter um Picasso e um Portinari e não poder exibi-los? Mistério... seria como conseguir levar a Gisele Bündchen para um motel e não poder falar pra ninguém!
Essa notícia impressionou não apenas pelas obras roubadas que, apesar do preço em milhões de dólares, valores apenas de referência, especialistas afirmam serem elas de valor inestimável! Mas surpreendeu, também, pela extrema vulnerabilidade de um museu do porte do Masp que, sabemos, não se trata de um pequeno museu de cidade do interior. Estão lá cerca de 8 mil obras avaliadas em mais de um bilhão de dólares e que, vejam só, são guardadas e protegidas por apenas 4 vigias desarmados que, talvez, não tenham a menor noção do valor das obras que vigiam; e por um obsoleto sistema de segurança eletrônica. Sorte nossa que as obras foram encontradas em uma casa em Ferraz de Vasconcelos, região metropolitana de São Paulo, e recuperadas. As investigações da polícia, dizem, são sigilosas e é bom que sejam.
Sinceramente não dá pra entender porque essas medidas de modernização do sistema de segurança do Masp não foram tomadas antes! Porque, em outubro passado, dois homens já haviam tentado entrar no Masp mas bobearam, o alarme soou e eles fugiram. Desconfia-se até de que sejam os mesmos que roubaram o Picasso e o Portinari. Também não entendo porque a iniciativa de modernização da segurança do museu está partindo de empresas privadas... e os volumosos recursos públicos repassados pelo governo?
Acho que está mais do que na hora de o governo dar uma olhada nos livros do Masp e checar a fundo o porquê dessa crise financeira... desconfio de que além do roubo de obras de arte também está havendo desvio de verbas! Imaginem que um museu desse porte ficou às escuras em maio passado porque não pagou a conta de luz! Não é pra desconfiar? Mas há outros dentes doendo... como falta de bombeiros de plantão, pontos de goteiras em dias de chuva, vigias sem treinamento nem licença etc... Sei não... sei não!
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