Home arrow Aurélio arrow E eu então... 29 de julho de 2010
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E eu então... PDF Imprimir E-mail
Por Aurélio   
pinoquioEubúlides de Mileto foi um filósofo grego que, por não ter nada melhor a fazer, ficava inventando paradoxos. Seu mais famoso argumento sofístico foi o do Mentiroso que começava com o seguinte questionamento: se uma pessoa, ao dizer Eu minto!, estiver falando a verdade, então essa afirmação é falsa. Mas se o que ela estiver dizendo é mentira, então afirmação agora é verdadeira, tornando-se falsa novamente e assim por diante. Donde-se conclui que uma afirmação ou pode, ao mesmo tempo, ser falsa ou verdadeira; ou pode, por recorrência, concluir-se que ora é falsa, ora é verdadeira. É uma espécie de dízima periódica filosófica. Na mesma escola socrática de Eubúlides de Mileto, estudava Aurelius de Fall Rivus que fazia a seguinte afirmação: se alguém diz Eu sou veado!, e se o “ve” que se ouvir sair meio parecido com “vi”, concluir-se-á que essa pessoa é chegada em dar marcha a ré no quibe! Mas se o que se ouvir for mesmo o “ve” poder-se-á deduzir então que a dita pessoa, na verdade, está representando aquele simpático animal galhudo e de pernas finas que, garboso, desfila pelos gramados do Morumbi. Donde-se se conclui que esses estudos filosóficos não servem para nada. Apenas caracterizam minha habilidade em prender a atenção e, ao mesmo tempo, escrever esse monte de bobagens!


Mas o que eu queria mesmo era falar sobre mentirosos. Há aqueles que dizem mentiras, mas que pretendem ser verdades; e aqueles que afirmam que é verdade aquilo que, sabemos, não passa de uma mentira deslavada! No final é tudo farinha do mesmo saco. O Quico era assim...

Sempre que o Quico chegava na rodinha de amigos para participar da conversa a turma já puxava o freio de mão com um cochicho: “Putz! Lá vem ele!” e a primeira coisa que ele fazia era se inteirar do assunto sobre o qual estavam falando. Não importava qual era o assunto. Ele interrompia quem estivesse falando e dizia que já tinha passado pela mesma situação e com muito mais intensidade nos fatos e nos acontecimentos. Ele sempre começava assim:

___ E eu então...

Quando ele dizia “E eu então...” podia se esperar de tudo, menos que fosse verdade o que ele iria dizer. Se alguém, por exemplo, se queixasse que tinha passado mal com uma gripe à noite o Quico não deixava por menos:

___ E eu então... tiveram de isolar a minha cama do resto da casa com uma tenda de neoprene. Ninguém podia entrar no quarto... apenas dois cientistas japoneses que vieram especialmente de Kioto porque estavam desconfiados que o virus que havia me atacado era raríssimo, surgido na Segunda Guerra em Hiroshima após a explosão da bomba... disseram que foi uma japonesa lésbica que espalhou o vírus pelo mundo. Fecharam até a rua lá onde eu moro... verdade!

Na rodinha, um olhava para o outro com aquela cara de quem acabou de ver o Bill Gates usando um Macintosh. Mas ninguém questionava. Só o Lilico chegou a perguntar:

___ Como é uma uma japonesa lésbica?

Uma vez o papo era sobre carros, velocidade etc e tal! Um já tinha batido num guard-rail, outro já tinha batido num caminhão de tomates, outro quase capotara na praia, outro... aí cortou o Quico:

___ E eu então... eu tava como aquele Opala verde, lembram dele? Tava descendo a Coronel Diogo, vocês sabem... baita descida, cheia de curvas, tava a mais de 100... quando numa curva fechada eu ouvi um barulho na roda dianteira esquerda. Sem diminuir a velocidade, olhei pela janela e vi que a calota tinha se desgrudado da roda e começou a rodar no asfalto ao lado do pneu. Aí eu fui controlando freio e acelerador, meio que alinhando o pneu com a calota... quando eu vi que estavam alinhados e na mesma direção eu pimba! dei uma guinada no volante e joguei o pneu de encontro à calota e ela zás! encaixou de novo na roda! Verdade...

De novo aquela troca de olhares e todo mundo com aquela cara de quem estava vendo alguém tocando um oboé numa roda de pagode! Pior é que ninguém cobrava nada, não questionava. Só o Lilico...

___ Ainda tô pensando na japonesa lésbica!

Nessa noite o Quico falou também que o avô dele havia ficado sem álcool no carro em plena Ailton Senna de madrugada e tudo que ele tinha era uma garrafa de uísque Ballantines 12 anos. Ele disse que o velho não teve dúvidas! Despejou a garrafa inteirinha no tanque e conseguiu chegar num posto mais próximo. A turma ouviu essa história como quem estivesse assistindo uma aula de Física Quântica ministrada pela Carla Perez. O Quico sentiu que tinha exagerado mas não deixou a peteca cair:

___ Verdade pessoal... o carro do meu avô agora não funciona mais com álcool comum... é só Ballantines 12 anos e olhe lá! Não adianta meter um Drury’s que ele não roda...

Depois dessa, um a um foi deixando a rodinha, dando uma desculpa qualquer, saindo de fininho. O Quico se desesperou:

___ Pera aí, turma... onde vocês vão? Ainda tenho de falar que meu vô teve de mandar o carro dele pro Alcóolicos Anônimos...

Não adiantou. Ninguém mais quis ouvir aquelas mentiras... só o Lilico ainda continuava olhando para o Quico:

___ Me fala mais daquela japonesa lésbica...

Mesmo que a platéia estivesse reduzida ao Lilico, O Quico não perdia a empolgação e a compulsão à mentira:

___ A japonesa? Ora esquece a japonesa... por falar nisso já te contei que os japoneses inventaram um robô-mulher que vai substituir as esposas na vida dos maridos?

___ Verdade? ___ o Lilico era um ingênuo, coitado!

___ Verdade... o robô faz de tudo: lava, cozinha, abre latas, tira rolha de garrafas, passa roupa, lava o quintal e maravilha das maravilhas: faz sexo!

___ Faz sexo? Jura?

___ Juro! Só é preciso tomar cuidado porque atrás é moedor de carne!

Era um incorrigível!

 
 
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