Tive que ver duas vezes o Tropa de Elite para conseguir
digerir a quantidade de informações ali apresentadas, sentar e escrever esse
texto. Porque tive que vê-lo mais de uma vez? Porque Tropa de Elite passa longe
de ser um filme nacional convencional. E tinha medo de fazer certas conclusões
apressadas, como parte da mídia parece fazer.
Exatamente
no quê esse filme se destaca dos outros? Esse é o primeiro filme que vejo da
dita ‘retomada’ do cinema brasileiro, que me parece merecer um lugar ao Sol
longe de Pindorama. O diretor José Padilha não nos mostra uma visão de mundo
fechada. Não parte de uma premissa com base em na última teoria estética-social da academia para fazer o seu filme.
Diferentemente
da maioria da produção nacional, o filme parte de uma discussão presente na
sociedade e genuinamente quer devolvê-la a sociedade. A história do capitão
Nascimento cruza tanto com a da classe alta quanto da classe baixa, não
querendo fazer paralelo com os textos sobre o assalto ao antigo apresentador do
‘H’.
O conflito
retratado no filme não é só de uma parte, mas de toda a sociedade metropolitana
brasileira. Desde os seus filhos que fumam maconha, até ao vizinho que faz ‘vapor’
pro tráfico, todos conhecemos alguém que em algum momento da vida se envolve
com o problema.
E é a
partir dessa percepção que o filme de Padilha ganha força. É percebendo que a
realidade social brasileira é muito mais complexa do que aquela que tanto os
alunos de direito quanto o professor de sociologia entendem no filme. Diferentemente
de Cidade de Deus, que por exemplo levou a classe média ao cinema e somente fez
com que ela saísse com os seus próprios preconceitos reafirmados, Tropa de
Elite força a sociedade como um todo a repensar suas atitudes.
Isso desde
a sua distribuição ilegal, até o conteúdo do filme em si. Que já virou peça de
cultura pop, outro dia andando por um clube noturno paulistano, eis que a face
do capitão Nascimento em uma tela de plasma em prega um susto. A mesma face,
que é execrada pelas pessoas que se sentem incomodadas pelo filme, a face que
entende tão bem como as coisas funcionam por aqui.
A voz que
nos diz: “o problema é o sistema”. O problema já quase não tem mais a ver com
pessoas, o problema está de tal forma enraizado na estrutura social que um
policial honesto tem que radicalizar para conseguir manter-se vivo! Pagando
como preço a sua sanidade.
E é
justamente esse o caminho feito por toda a sociedade brasileira. Aqui uma
pessoa honesta é tida como chata, quando na verdade ela está simplesmente sendo
honesta, não pentelha ou cri-cri. Chato é o cara que mesmo depois de ver todas
as conseqüências das suas ações, continua a passar uma graninha ao policial, ou
depois de ver a complexidade da situação, achar que puxar um ‘beck’ traficado
de vez em quando não faz mal a ninguém...
Mas para
essas pessoas, a discussão é se o capitão Nascimento é fascista ou não, por que
olhar para o próprio umbigo através de uma obra de arte, incomoda. É mais fácil
falar que ela tem um problema estrutural, que ela parte de pontos de vista anti-sociais,
ao invés de repensar e voltar a discutir o essencial. Que foi a ferida na qual
ela já tinha cutucado...
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