Home arrow Ferrarista arrow Capitão Nascimento e a ferida 07 de setembro de 2010
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Capitão Nascimento e a ferida PDF Imprimir E-mail
Por Ferrarista   
tropa

Tive que ver duas vezes o Tropa de Elite para conseguir digerir a quantidade de informações ali apresentadas, sentar e escrever esse texto. Porque tive que vê-lo mais de uma vez? Porque Tropa de Elite passa longe de ser um filme nacional convencional. E tinha medo de fazer certas conclusões apressadas, como parte da mídia parece fazer.

            Exatamente no quê esse filme se destaca dos outros? Esse é o primeiro filme que vejo da dita ‘retomada’ do cinema brasileiro, que me parece merecer um lugar ao Sol longe de Pindorama. O diretor José Padilha não nos mostra uma visão de mundo fechada. Não parte de uma premissa com base em na última teoria estética-social da academia para fazer o seu filme.

            Diferentemente da maioria da produção nacional, o filme parte de uma discussão presente na sociedade e genuinamente quer devolvê-la a sociedade. A história do capitão Nascimento cruza tanto com a da classe alta quanto da classe baixa, não querendo fazer paralelo com os textos sobre o assalto ao antigo apresentador do ‘H’.

            O conflito retratado no filme não é só de uma parte, mas de toda a sociedade metropolitana brasileira. Desde os seus filhos que fumam maconha, até ao vizinho que faz ‘vapor’ pro tráfico, todos conhecemos alguém que em algum momento da vida se envolve com o problema.

            E é a partir dessa percepção que o filme de Padilha ganha força. É percebendo que a realidade social brasileira é muito mais complexa do que aquela que tanto os alunos de direito quanto o professor de sociologia entendem no filme. Diferentemente de Cidade de Deus, que por exemplo levou a classe média ao cinema e somente fez com que ela saísse com os seus próprios preconceitos reafirmados, Tropa de Elite força a sociedade como um todo a repensar suas atitudes.

            Isso desde a sua distribuição ilegal, até o conteúdo do filme em si. Que já virou peça de cultura pop, outro dia andando por um clube noturno paulistano, eis que a face do capitão Nascimento em uma tela de plasma em prega um susto. A mesma face, que é execrada pelas pessoas que se sentem incomodadas pelo filme, a face que entende tão bem como as coisas funcionam por aqui.

            A voz que nos diz: “o problema é o sistema”. O problema já quase não tem mais a ver com pessoas, o problema está de tal forma enraizado na estrutura social que um policial honesto tem que radicalizar para conseguir manter-se vivo! Pagando como preço a sua sanidade.

            E é justamente esse o caminho feito por toda a sociedade brasileira. Aqui uma pessoa honesta é tida como chata, quando na verdade ela está simplesmente sendo honesta, não pentelha ou cri-cri. Chato é o cara que mesmo depois de ver todas as conseqüências das suas ações, continua a passar uma graninha ao policial, ou depois de ver a complexidade da situação, achar que puxar um ‘beck’ traficado de vez em quando não faz mal a ninguém...

            Mas para essas pessoas, a discussão é se o capitão Nascimento é fascista ou não, por que olhar para o próprio umbigo através de uma obra de arte, incomoda. É mais fácil falar que ela tem um problema estrutural, que ela parte de pontos de vista anti-sociais, ao invés de repensar e voltar a discutir o essencial. Que foi a ferida na qual ela já tinha cutucado...

 
 
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